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		<title>Gui Olivieri</title>
		<link>http://www.guiolivieri.com.br/index.php</link>
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		<language>pt-BR</language>
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				<item>
			<title>Por qu&#234;?</title>
			<link>http://www.guiolivieri.com.br/index.php/por-que</link>
			<pubDate>Fri, 08 Aug 2008 13:14:45 +0000</pubDate>			<dc:creator>oproprio</dc:creator>
			<category domain="main">Textos</category>			<guid isPermaLink="false">36@http://www.guiolivieri.com.br/</guid>
						<description>&lt;p&gt;O Ricardo Semler teoriza que, em qualquer circunst&amp;#226;ncia, nenhuma atividade sup&amp;#233;rflua ou infundada resiste a 3 porqu&amp;#234;s; minha primog&amp;#234;nita &amp;#233;, ent&amp;#227;o, uma ex&amp;#237;mia testadora dessa tese. Nunca, mas nunca mesmo, ela p&amp;#225;ra antes da oitava indaga&amp;#231;&amp;#227;o.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;E isso come&amp;#231;ou cedo. Lembro-me de uma oportunidade que, quando ela tinha pouco mais de dois anos, cheguei a contabilizar uma sess&amp;#227;o infind&amp;#225;vel de porqu&amp;#234;s: foram 14 em um minuto. Com cron&amp;#244;metro e tudo. D&amp;#225; quase uma quest&amp;#227;o a cada 4 segundos!&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Hoje, que ela tem 4 anos rec&amp;#233;m completos, ainda a acho precoce em tantas d&amp;#250;vidas e tantos questionamentos. Numa m&amp;#250;sica &amp;#8211; &amp;#243;tima, por sinal - a Paula Toller cita, em versos deliciosos, alguns exemplos das centenas de perguntas com as quais seu filho a bombardeara. O detalhe, que me estarrece e me p&amp;#245;e desesperado, &amp;#233; que a can&amp;#231;&amp;#227;o chama-se &quot;Oito Anos&quot;. Ser&amp;#225; que piora daqui pra l&amp;#225;? Tenho certeza que sim. E as perguntas devem ficar cada vez mais dif&amp;#237;ceis de responder.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Fazendo um passatempo, li uma curiosidade que transcrevo: &quot;em um dia normal, uma crian&amp;#231;a de quatro anos de idade faz 437 perguntas&quot;. Pergunto eu:&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;- De onde eles tiraram esse n&amp;#250;mero?&lt;br /&gt;
- Quem foram os entrevistados?&lt;br /&gt;
- Como foram contabilizadas as perguntas?&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;De qualquer modo, minha pequena est&amp;#225; bem acima dessa m&amp;#233;dia. Sem d&amp;#250;vida.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Entretanto, dia desses, n&amp;#227;o foi o excesso de perguntas que me entortou. Depois de uma bateria enorme de quest&amp;#245;es, onde tive que explicar a funcionalidade de todos os objetos que estavam &amp;#224; vista, ela parou, me encarou em sil&amp;#234;ncio por dois segundos, entortou ligeiramente a cabe&amp;#231;a para o lado, franziu a testa e fuzilou:&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;- E voc&amp;#234;, papai, serve pra qu&amp;#234;?&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Comecei a fazer terapia.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Gui Olivieri&lt;br /&gt;
08/08/2008&lt;/p&gt;&lt;div class=&quot;item_footer&quot;&gt;&lt;p&gt;&lt;small&gt;Powered by &lt;a href=&quot;http://b2evolution.net/&quot;&gt;b2evolution&lt;/a&gt;.&lt;/small&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;</description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O Ricardo Semler teoriza que, em qualquer circunst&#226;ncia, nenhuma atividade sup&#233;rflua ou infundada resiste a 3 porqu&#234;s; minha primog&#234;nita &#233;, ent&#227;o, uma ex&#237;mia testadora dessa tese. Nunca, mas nunca mesmo, ela p&#225;ra antes da oitava indaga&#231;&#227;o.</p>

<p>E isso come&#231;ou cedo. Lembro-me de uma oportunidade que, quando ela tinha pouco mais de dois anos, cheguei a contabilizar uma sess&#227;o infind&#225;vel de porqu&#234;s: foram 14 em um minuto. Com cron&#244;metro e tudo. D&#225; quase uma quest&#227;o a cada 4 segundos!</p>

<p>Hoje, que ela tem 4 anos rec&#233;m completos, ainda a acho precoce em tantas d&#250;vidas e tantos questionamentos. Numa m&#250;sica &#8211; &#243;tima, por sinal - a Paula Toller cita, em versos deliciosos, alguns exemplos das centenas de perguntas com as quais seu filho a bombardeara. O detalhe, que me estarrece e me p&#245;e desesperado, &#233; que a can&#231;&#227;o chama-se "Oito Anos". Ser&#225; que piora daqui pra l&#225;? Tenho certeza que sim. E as perguntas devem ficar cada vez mais dif&#237;ceis de responder.</p>

<p>Fazendo um passatempo, li uma curiosidade que transcrevo: "em um dia normal, uma crian&#231;a de quatro anos de idade faz 437 perguntas". Pergunto eu:</p>

<p>- De onde eles tiraram esse n&#250;mero?<br />
- Quem foram os entrevistados?<br />
- Como foram contabilizadas as perguntas?</p>

<p>De qualquer modo, minha pequena est&#225; bem acima dessa m&#233;dia. Sem d&#250;vida.</p>

<p>Entretanto, dia desses, n&#227;o foi o excesso de perguntas que me entortou. Depois de uma bateria enorme de quest&#245;es, onde tive que explicar a funcionalidade de todos os objetos que estavam &#224; vista, ela parou, me encarou em sil&#234;ncio por dois segundos, entortou ligeiramente a cabe&#231;a para o lado, franziu a testa e fuzilou:</p>

<p>- E voc&#234;, papai, serve pra qu&#234;?</p>

<p>Comecei a fazer terapia.</p>

<p>Gui Olivieri<br />
08/08/2008</p><div class="item_footer"><p><small>Powered by <a href="http://b2evolution.net/">b2evolution</a>.</small></p></div>]]></content:encoded>
								<comments>http://www.guiolivieri.com.br/index.php/por-que#comments</comments>
		</item>
				<item>
			<title>Como &#233; o nome daqueles livros com imagens em 3D?</title>
			<link>http://www.guiolivieri.com.br/index.php/como-e-o-nome-daqueles-livros-com-imagen</link>
			<pubDate>Fri, 07 Mar 2008 12:21:12 +0000</pubDate>			<dc:creator>oproprio</dc:creator>
			<category domain="main">Textos</category>			<guid isPermaLink="false">35@http://www.guiolivieri.com.br/</guid>
						<description>&lt;p&gt;Dia desses, cheguei em casa, vindo da nata&amp;#231;&amp;#227;o, e encontrei minha primog&amp;#234;nita - 3 anos e meio - dando um show daqueles. De dentro do carro, no estacionamento em frente ao bloco, j&amp;#225; escutava seus gritos. Subi os degraus de dois lances de escadas aos pulos, j&amp;#225; com o sangue quente. A cena que se seguia era a Elis rolando no ch&amp;#227;o do banheiro enperneando-se, aos berros: &quot;Eu n&amp;#227;o quero tomar banho! Eu n&amp;#227;o quero tomar banho!&quot;. Minha sogra, uma santa, desdobrava-se em argumentos para demov&amp;#234;-la do faniquito.&lt;br /&gt;
Quem me conhece um tiquinho assim sabe que minha (in)toler&amp;#226;ncia a birra s&amp;#243; se equipara com a que tenho com vasca&amp;#237;nos.&lt;br /&gt;
Entretanto, julguei que minha interven&amp;#231;&amp;#227;o tiraria a autoridade da av&amp;#243; e, apesar do meu limite para esse tipo de esc&amp;#226;ndalo ser nulo, engoli seco e fui tomar um banho, com a casa ainda ecoando em gritos.&lt;br /&gt;
Quando sa&amp;#237;, encontrei-a linda, cheirosa e saltitante. Fui exercer meu papel de pai: &quot;Filha, venha aqui, por favor&quot;, no que ela veio toda sorridente. Sentei-a na cama, agachei &amp;#224; sua frente, para ficarmos na mesma altura, e comecei a rezar a missa.&lt;br /&gt;
- Filha, por que voc&amp;#234; estava chorando?&lt;br /&gt;
Conhecem aquele olhar do Gato de Botas, da s&amp;#233;rie Shrek? Foi a resposta.&lt;br /&gt;
Segui em tom firme, mas com a voz doce: &quot;voc&amp;#234; n&amp;#227;o pode fazer isso&quot;, &quot;voc&amp;#234;, normalmente, &amp;#233; t&amp;#227;o comportada&quot;, &quot;a vov&amp;#243; vem aqui para te fazer companhia&quot; soltei, n&amp;#227;o necessariamente nessa ordem - e ela me encarando. T&amp;#225; funcionando. &quot;O papai fica aborrecido&quot;, &quot;fazer birra &amp;#233; feio&quot; e ela com olhos nos olhos. Continuei com minhas frases de efeito para a psicologia infantil e, para minha surpresa, a Elis sem desviar a aten&amp;#231;&amp;#227;o, arregalando os olhos de vez em quando, sem piscar, a um palmo de dist&amp;#226;ncia de mim.&lt;br /&gt;
Acho que at&amp;#233; espichei meu serm&amp;#227;o, dada a receptividade dela, sustentando firme o olho-no-olho. Quando terminei, estava convencido que tinha atingido meu objetivo, porque nunca a tinha visto acompanhar t&amp;#227;o atentamente meus discursos. &quot;N&amp;#227;o fa&amp;#231;a mais isso, t&amp;#225; bom?&quot; Ela me encarou por mais uns dois segundos, em sil&amp;#234;ncio, deu uma esbugalhada nos olhos t&amp;#237;pica de quem est&amp;#225; desfocando, e soltou essa, apontando para o centro das minhas sobrancelhas:&lt;br /&gt;
- Papai, voc&amp;#234; tem tr&amp;#234;s olhos...&lt;/p&gt;&lt;div class=&quot;item_footer&quot;&gt;&lt;p&gt;&lt;small&gt;Powered by &lt;a href=&quot;http://b2evolution.net/&quot;&gt;b2evolution&lt;/a&gt;.&lt;/small&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;</description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Dia desses, cheguei em casa, vindo da nata&#231;&#227;o, e encontrei minha primog&#234;nita - 3 anos e meio - dando um show daqueles. De dentro do carro, no estacionamento em frente ao bloco, j&#225; escutava seus gritos. Subi os degraus de dois lances de escadas aos pulos, j&#225; com o sangue quente. A cena que se seguia era a Elis rolando no ch&#227;o do banheiro enperneando-se, aos berros: "Eu n&#227;o quero tomar banho! Eu n&#227;o quero tomar banho!". Minha sogra, uma santa, desdobrava-se em argumentos para demov&#234;-la do faniquito.<br />
Quem me conhece um tiquinho assim sabe que minha (in)toler&#226;ncia a birra s&#243; se equipara com a que tenho com vasca&#237;nos.<br />
Entretanto, julguei que minha interven&#231;&#227;o tiraria a autoridade da av&#243; e, apesar do meu limite para esse tipo de esc&#226;ndalo ser nulo, engoli seco e fui tomar um banho, com a casa ainda ecoando em gritos.<br />
Quando sa&#237;, encontrei-a linda, cheirosa e saltitante. Fui exercer meu papel de pai: "Filha, venha aqui, por favor", no que ela veio toda sorridente. Sentei-a na cama, agachei &#224; sua frente, para ficarmos na mesma altura, e comecei a rezar a missa.<br />
- Filha, por que voc&#234; estava chorando?<br />
Conhecem aquele olhar do Gato de Botas, da s&#233;rie Shrek? Foi a resposta.<br />
Segui em tom firme, mas com a voz doce: "voc&#234; n&#227;o pode fazer isso", "voc&#234;, normalmente, &#233; t&#227;o comportada", "a vov&#243; vem aqui para te fazer companhia" soltei, n&#227;o necessariamente nessa ordem - e ela me encarando. T&#225; funcionando. "O papai fica aborrecido", "fazer birra &#233; feio" e ela com olhos nos olhos. Continuei com minhas frases de efeito para a psicologia infantil e, para minha surpresa, a Elis sem desviar a aten&#231;&#227;o, arregalando os olhos de vez em quando, sem piscar, a um palmo de dist&#226;ncia de mim.<br />
Acho que at&#233; espichei meu serm&#227;o, dada a receptividade dela, sustentando firme o olho-no-olho. Quando terminei, estava convencido que tinha atingido meu objetivo, porque nunca a tinha visto acompanhar t&#227;o atentamente meus discursos. "N&#227;o fa&#231;a mais isso, t&#225; bom?" Ela me encarou por mais uns dois segundos, em sil&#234;ncio, deu uma esbugalhada nos olhos t&#237;pica de quem est&#225; desfocando, e soltou essa, apontando para o centro das minhas sobrancelhas:<br />
- Papai, voc&#234; tem tr&#234;s olhos...</p><div class="item_footer"><p><small>Powered by <a href="http://b2evolution.net/">b2evolution</a>.</small></p></div>]]></content:encoded>
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		</item>
				<item>
			<title>Xampu</title>
			<link>http://www.guiolivieri.com.br/index.php/xampu</link>
			<pubDate>Fri, 07 Mar 2008 12:19:34 +0000</pubDate>			<dc:creator>oproprio</dc:creator>
			<category domain="main">Textos</category>			<guid isPermaLink="false">34@http://www.guiolivieri.com.br/</guid>
						<description>&lt;p&gt;Benh&amp;#234;, acorda.&lt;br /&gt;
- Ahn?&lt;br /&gt;
- Nossa bebezona t&amp;#225; mesmo gripada, j&amp;#225; levantei tr&amp;#234;s vezes para acudir. V&amp;#225; l&amp;#225;, por favor, porque ela est&amp;#225; resmungando. Veja se &amp;#233; febre; se for, d&amp;#234; o antit&amp;#233;rmico, t&amp;#225; bom?&lt;br /&gt;
- Ahn?&lt;br /&gt;
- Juvenal!&lt;br /&gt;
- T&amp;#244; indo, t&amp;#244; indo...&lt;br /&gt;
Cal&amp;#231;ou os chinelos trocados e trope&amp;#231;ou duas vezes, sonolento, at&amp;#233; alcan&amp;#231;ar a caminha, tentando encontrar uma boa raz&amp;#227;o para o porqu&amp;#234; de, em plena &amp;#233;poca dos avan&amp;#231;os tecnol&amp;#243;gicos e dos sistemas de informa&amp;#231;&amp;#245;es, as crian&amp;#231;as n&amp;#227;o terem uma tela de LCD na testa com informa&amp;#231;&amp;#245;es b&amp;#225;sicas de temperatura, sono, fome, n&amp;#237;vel da bexiga, etc.&lt;br /&gt;
- &amp;#212;, filhinha, tudo bem?&lt;br /&gt;
- Ahn&amp;#227;u&amp;#227;hnanhua&amp;#227;&amp;#227;&amp;#227;&amp;#227;&amp;#227;&amp;#227;&amp;#227;h - foi, mais ou menos a resposta, em tom beeem choroso.&lt;br /&gt;
- Deixe o papai colocar o term&amp;#244;metro aqui.&lt;br /&gt;
Chegou a sonhar enquanto esperava o bipe.&lt;br /&gt;
- 38,5. O papai vai pegar o remedinho, t&amp;#225;?&lt;br /&gt;
- N&amp;#227;&amp;#227;&amp;#227;hn&amp;#227;u&amp;#227;hnanhua&amp;#227;&amp;#227;&amp;#227;&amp;#227;&amp;#227;&amp;#227;&amp;#227;o.&lt;br /&gt;
- Eu volto num instante.&lt;br /&gt;
- N&amp;#227;o, papai.&lt;br /&gt;
- &amp;#201; r&amp;#225;pido, meu amor.&lt;br /&gt;
- Mas eu n&amp;#227;o quero o rem&amp;#233;dio.&lt;br /&gt;
- Por qu&amp;#234;?&lt;br /&gt;
- Porque tem gosto de xampu.&lt;br /&gt;
Abafou, como p&amp;#244;de, o riso.&lt;br /&gt;
- Como assim, filha?&lt;br /&gt;
- U&amp;#233;, papai, xampu. Sabe? O do cabelo.&lt;br /&gt;
- Eu sei o que &amp;#233; xampu, filha, mas como voc&amp;#234; sabe o gosto?&lt;br /&gt;
- Eu sei, oras.&lt;br /&gt;
- Voc&amp;#234; andou bebendo xampu? Olha, filha, n&amp;#227;o pode isso. Xampu n&amp;#227;o &amp;#233; de beber.&lt;br /&gt;
- N&amp;#227;o bebi, papai, mas sei o gosto. Igual ao remedinho.&lt;br /&gt;
- Mas o rem&amp;#233;dio &amp;#233; sabor tutti-frutti...&lt;br /&gt;
- O que &amp;#233; tutti-frutti?&lt;br /&gt;
- &amp;#201; uma mistura de todas as frutas - arriscou uma tradu&amp;#231;&amp;#227;o-livre com seu italiano nulo.&lt;br /&gt;
- Todas?&lt;br /&gt;
- Sim, todas.&lt;br /&gt;
- Tem morango, papai?&lt;br /&gt;
- Tem, filha.&lt;br /&gt;
- Tem banana, papai?&lt;br /&gt;
- Tem tamb&amp;#233;m, filha.&lt;br /&gt;
- Tem uva, papai?&lt;br /&gt;
- Claro que tem, filha - disse, j&amp;#225; impaciente - tem todas as frutas misturadas.&lt;br /&gt;
- At&amp;#233; abacate, papai?&lt;br /&gt;
- Sim, filha, at&amp;#233; abacate.&lt;br /&gt;
- Ent&amp;#227;o n&amp;#227;o quero, porque n&amp;#227;o gosto de abacate.&lt;br /&gt;
- J&amp;#225; chega! &amp;#8211; disse irritado por ter ca&amp;#237;do na arapuca armada pela filha, de apenas 3 anos - Vai tomar sim, porque a mam&amp;#227;e disse que precisa - diante do fracasso iminente, apelou para a autoridade m&amp;#225;xima da casa, para acabar com a discuss&amp;#227;o.&lt;br /&gt;
- Ent&amp;#227;o voc&amp;#234; toma um pouquinho, para eu ver que n&amp;#227;o &amp;#233; ruim o gosto?&lt;br /&gt;
- T&amp;#225; bom, mas s&amp;#243; um pouquinho.&lt;br /&gt;
Sujou os l&amp;#225;bios com o tal rem&amp;#233;dio, fingiu estar provando um manjar dos deuses e acabou por ministrar a quantidade recomendada &amp;#224; pequena, que tomou a contragosto. Trocaram um &quot;boa noite&quot;, ela logo se atracou com o travesseiro e ele voltou pra cama.&lt;br /&gt;
Ao deitar, acabou acordando a companheira.&lt;br /&gt;
- Era febre?&lt;br /&gt;
- Era.&lt;br /&gt;
- Deu o rem&amp;#233;dio?&lt;br /&gt;
- Ap&amp;#243;s uma boa chiadeira, n&amp;#227;o escutou?&lt;br /&gt;
- N&amp;#227;o. Venha c&amp;#225;, me d&amp;#234; um beijo e vamos dormir.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;- Juvenal?&lt;br /&gt;
- Ahn?&lt;br /&gt;
- Que gosto de xampu &amp;#233; esse?&lt;/p&gt;&lt;div class=&quot;item_footer&quot;&gt;&lt;p&gt;&lt;small&gt;Powered by &lt;a href=&quot;http://b2evolution.net/&quot;&gt;b2evolution&lt;/a&gt;.&lt;/small&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;</description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Benh&#234;, acorda.<br />
- Ahn?<br />
- Nossa bebezona t&#225; mesmo gripada, j&#225; levantei tr&#234;s vezes para acudir. V&#225; l&#225;, por favor, porque ela est&#225; resmungando. Veja se &#233; febre; se for, d&#234; o antit&#233;rmico, t&#225; bom?<br />
- Ahn?<br />
- Juvenal!<br />
- T&#244; indo, t&#244; indo...<br />
Cal&#231;ou os chinelos trocados e trope&#231;ou duas vezes, sonolento, at&#233; alcan&#231;ar a caminha, tentando encontrar uma boa raz&#227;o para o porqu&#234; de, em plena &#233;poca dos avan&#231;os tecnol&#243;gicos e dos sistemas de informa&#231;&#245;es, as crian&#231;as n&#227;o terem uma tela de LCD na testa com informa&#231;&#245;es b&#225;sicas de temperatura, sono, fome, n&#237;vel da bexiga, etc.<br />
- &#212;, filhinha, tudo bem?<br />
- Ahn&#227;u&#227;hnanhua&#227;&#227;&#227;&#227;&#227;&#227;&#227;h - foi, mais ou menos a resposta, em tom beeem choroso.<br />
- Deixe o papai colocar o term&#244;metro aqui.<br />
Chegou a sonhar enquanto esperava o bipe.<br />
- 38,5. O papai vai pegar o remedinho, t&#225;?<br />
- N&#227;&#227;&#227;hn&#227;u&#227;hnanhua&#227;&#227;&#227;&#227;&#227;&#227;&#227;o.<br />
- Eu volto num instante.<br />
- N&#227;o, papai.<br />
- &#201; r&#225;pido, meu amor.<br />
- Mas eu n&#227;o quero o rem&#233;dio.<br />
- Por qu&#234;?<br />
- Porque tem gosto de xampu.<br />
Abafou, como p&#244;de, o riso.<br />
- Como assim, filha?<br />
- U&#233;, papai, xampu. Sabe? O do cabelo.<br />
- Eu sei o que &#233; xampu, filha, mas como voc&#234; sabe o gosto?<br />
- Eu sei, oras.<br />
- Voc&#234; andou bebendo xampu? Olha, filha, n&#227;o pode isso. Xampu n&#227;o &#233; de beber.<br />
- N&#227;o bebi, papai, mas sei o gosto. Igual ao remedinho.<br />
- Mas o rem&#233;dio &#233; sabor tutti-frutti...<br />
- O que &#233; tutti-frutti?<br />
- &#201; uma mistura de todas as frutas - arriscou uma tradu&#231;&#227;o-livre com seu italiano nulo.<br />
- Todas?<br />
- Sim, todas.<br />
- Tem morango, papai?<br />
- Tem, filha.<br />
- Tem banana, papai?<br />
- Tem tamb&#233;m, filha.<br />
- Tem uva, papai?<br />
- Claro que tem, filha - disse, j&#225; impaciente - tem todas as frutas misturadas.<br />
- At&#233; abacate, papai?<br />
- Sim, filha, at&#233; abacate.<br />
- Ent&#227;o n&#227;o quero, porque n&#227;o gosto de abacate.<br />
- J&#225; chega! &#8211; disse irritado por ter ca&#237;do na arapuca armada pela filha, de apenas 3 anos - Vai tomar sim, porque a mam&#227;e disse que precisa - diante do fracasso iminente, apelou para a autoridade m&#225;xima da casa, para acabar com a discuss&#227;o.<br />
- Ent&#227;o voc&#234; toma um pouquinho, para eu ver que n&#227;o &#233; ruim o gosto?<br />
- T&#225; bom, mas s&#243; um pouquinho.<br />
Sujou os l&#225;bios com o tal rem&#233;dio, fingiu estar provando um manjar dos deuses e acabou por ministrar a quantidade recomendada &#224; pequena, que tomou a contragosto. Trocaram um "boa noite", ela logo se atracou com o travesseiro e ele voltou pra cama.<br />
Ao deitar, acabou acordando a companheira.<br />
- Era febre?<br />
- Era.<br />
- Deu o rem&#233;dio?<br />
- Ap&#243;s uma boa chiadeira, n&#227;o escutou?<br />
- N&#227;o. Venha c&#225;, me d&#234; um beijo e vamos dormir.</p>

<p>- Juvenal?<br />
- Ahn?<br />
- Que gosto de xampu &#233; esse?</p><div class="item_footer"><p><small>Powered by <a href="http://b2evolution.net/">b2evolution</a>.</small></p></div>]]></content:encoded>
								<comments>http://www.guiolivieri.com.br/index.php/xampu#comments</comments>
		</item>
				<item>
			<title>A musa</title>
			<link>http://www.guiolivieri.com.br/index.php/a-musa</link>
			<pubDate>Fri, 07 Mar 2008 12:15:56 +0000</pubDate>			<dc:creator>oproprio</dc:creator>
			<category domain="main">Textos</category>			<guid isPermaLink="false">33@http://www.guiolivieri.com.br/</guid>
						<description>&lt;p&gt;Ontem foi um dia triste.&lt;br /&gt;
Afora o cansa&amp;#231;o colossal que eu sentia, fruto de uma noite de sono encurtada por uma festan&amp;#231;a em plena ter&amp;#231;a-feira, passei o dia abatido. Logo que acordei, ao desligar o despertador, vi a data e me lembrei dela. &amp;#8220;Faz dois anos&amp;#8221;, pensei, &amp;#8220;longos 2 anos sem poder t&amp;#234;-la&amp;#8221;.&lt;br /&gt;
Durante a manh&amp;#227; tentei esquecer, mergulhar no trabalho; mas de tanto em tanto ela me voltava &amp;#224; mem&amp;#243;ria. T&amp;#237;nhamos uma rela&amp;#231;&amp;#227;o longa, desde muito antes de eu me casar com a Simone. No come&amp;#231;o do casamento, inclusive, eu reprimi esse amor incontido por ela. Depois de algum tempo, sabendo que n&amp;#227;o conseguiria deix&amp;#225;-la no anonimato por muito tempo, declarei-a &amp;#224; minha esposa. Dias dif&amp;#237;ceis. E, para minha incredulidade e &amp;#234;xtase, depois de alguma discuss&amp;#227;o, conciliamos que eu poderia encontr&amp;#225;-la uma vez por semana, dentro de um hor&amp;#225;rio preestabelecido.&lt;br /&gt;
Que alegria! Minha mulher n&amp;#227;o s&amp;#243; j&amp;#225; sabia desse meu caso, como compactuava com minhas escapulidas semanais. &amp;#8220;Para o bem do nosso relacionamento&amp;#8221;, ela repetia aos incr&amp;#233;dulos que a questionavam. Eu completava: &amp;#8220;eu extravaso minhas frustra&amp;#231;&amp;#245;es, nessas ocasi&amp;#245;es, e volto para casa mais aliviado&amp;#8221;. Bons tempos aqueles. Houve &amp;#233;pocas em que eu conseguia uma brecha e a via duas, at&amp;#233; tr&amp;#234;s vezes na semana.&lt;br /&gt;
Apesar de intenso, nosso relacionamento sempre foi inst&amp;#225;vel. Altern&amp;#225;vamos momentos de amor e &amp;#243;dio at&amp;#233; no mesmo encontro. Confesso que at&amp;#233; bati nela; como apanhei diversas vezes. Mas isso n&amp;#227;o diminu&amp;#237;a minha disposi&amp;#231;&amp;#227;o em v&amp;#234;-la novamente na semana seguinte, cheio de esperan&amp;#231;as por mais momentos juntos. Eu me sentia mais vivo.&lt;br /&gt;
At&amp;#233; naquele fat&amp;#237;dico dia 9 aconteceu o acidente. Quem o presenciou nem desconfiou de sua gravidade. Pareceu um choquezinho normal, desses que acontecem aos montes todos os dias. Mas esse n&amp;#227;o. Foi grave. Dois traumatizados e uma fatalidade. Os m&amp;#233;dicos &amp;#8211; foram 3 &amp;#8211; at&amp;#233; que tentaram sua recupera&amp;#231;&amp;#227;o, o tratamento foi intensivo, 6 meses ininterruptos de esfor&amp;#231;os, em v&amp;#227;o.&lt;br /&gt;
A v&amp;#237;tima desse acidente n&amp;#227;o foi ela, que continua por a&amp;#237;, solta e faceira, a cachorra, sem me dar mais chances. Vez em quando a vejo aparecendo na m&amp;#237;dia; ao vivo, muito raramente. Sempre relembro de nossa rela&amp;#231;&amp;#227;o, deliciosamente conturbada. A v&amp;#237;tima fatal foi um parceiro que eu tinha e que, at&amp;#233; esse dia, eu nem sabia seu nome. &amp;#201; o ligamento talofibular do tornozelo direito. A musa? A bola, claro.&lt;/p&gt;&lt;div class=&quot;item_footer&quot;&gt;&lt;p&gt;&lt;small&gt;Powered by &lt;a href=&quot;http://b2evolution.net/&quot;&gt;b2evolution&lt;/a&gt;.&lt;/small&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;</description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ontem foi um dia triste.<br />
Afora o cansa&#231;o colossal que eu sentia, fruto de uma noite de sono encurtada por uma festan&#231;a em plena ter&#231;a-feira, passei o dia abatido. Logo que acordei, ao desligar o despertador, vi a data e me lembrei dela. &#8220;Faz dois anos&#8221;, pensei, &#8220;longos 2 anos sem poder t&#234;-la&#8221;.<br />
Durante a manh&#227; tentei esquecer, mergulhar no trabalho; mas de tanto em tanto ela me voltava &#224; mem&#243;ria. T&#237;nhamos uma rela&#231;&#227;o longa, desde muito antes de eu me casar com a Simone. No come&#231;o do casamento, inclusive, eu reprimi esse amor incontido por ela. Depois de algum tempo, sabendo que n&#227;o conseguiria deix&#225;-la no anonimato por muito tempo, declarei-a &#224; minha esposa. Dias dif&#237;ceis. E, para minha incredulidade e &#234;xtase, depois de alguma discuss&#227;o, conciliamos que eu poderia encontr&#225;-la uma vez por semana, dentro de um hor&#225;rio preestabelecido.<br />
Que alegria! Minha mulher n&#227;o s&#243; j&#225; sabia desse meu caso, como compactuava com minhas escapulidas semanais. &#8220;Para o bem do nosso relacionamento&#8221;, ela repetia aos incr&#233;dulos que a questionavam. Eu completava: &#8220;eu extravaso minhas frustra&#231;&#245;es, nessas ocasi&#245;es, e volto para casa mais aliviado&#8221;. Bons tempos aqueles. Houve &#233;pocas em que eu conseguia uma brecha e a via duas, at&#233; tr&#234;s vezes na semana.<br />
Apesar de intenso, nosso relacionamento sempre foi inst&#225;vel. Altern&#225;vamos momentos de amor e &#243;dio at&#233; no mesmo encontro. Confesso que at&#233; bati nela; como apanhei diversas vezes. Mas isso n&#227;o diminu&#237;a minha disposi&#231;&#227;o em v&#234;-la novamente na semana seguinte, cheio de esperan&#231;as por mais momentos juntos. Eu me sentia mais vivo.<br />
At&#233; naquele fat&#237;dico dia 9 aconteceu o acidente. Quem o presenciou nem desconfiou de sua gravidade. Pareceu um choquezinho normal, desses que acontecem aos montes todos os dias. Mas esse n&#227;o. Foi grave. Dois traumatizados e uma fatalidade. Os m&#233;dicos &#8211; foram 3 &#8211; at&#233; que tentaram sua recupera&#231;&#227;o, o tratamento foi intensivo, 6 meses ininterruptos de esfor&#231;os, em v&#227;o.<br />
A v&#237;tima desse acidente n&#227;o foi ela, que continua por a&#237;, solta e faceira, a cachorra, sem me dar mais chances. Vez em quando a vejo aparecendo na m&#237;dia; ao vivo, muito raramente. Sempre relembro de nossa rela&#231;&#227;o, deliciosamente conturbada. A v&#237;tima fatal foi um parceiro que eu tinha e que, at&#233; esse dia, eu nem sabia seu nome. &#201; o ligamento talofibular do tornozelo direito. A musa? A bola, claro.</p><div class="item_footer"><p><small>Powered by <a href="http://b2evolution.net/">b2evolution</a>.</small></p></div>]]></content:encoded>
								<comments>http://www.guiolivieri.com.br/index.php/a-musa#comments</comments>
		</item>
				<item>
			<title>Raimunda</title>
			<link>http://www.guiolivieri.com.br/index.php/raimunda</link>
			<pubDate>Fri, 07 Mar 2008 12:15:21 +0000</pubDate>			<dc:creator>oproprio</dc:creator>
			<category domain="main">Textos</category>			<guid isPermaLink="false">32@http://www.guiolivieri.com.br/</guid>
						<description>&lt;p&gt;Vamos combinar um coisa? Coc&amp;#244; &amp;#233; um mito. Todo mundo faz todo dia &amp;#8211; quem n&amp;#227;o consegue essa freq&amp;#252;&amp;#234;ncia morre de inveja dos mais &amp;#8220;ass&amp;#237;duos&amp;#8221; -, &amp;#233; da natureza humana, mas ai de quem puxar esse assunto em p&amp;#250;blico. &amp;#201; transgress&amp;#227;o das mais graves.&lt;br /&gt;
N&amp;#227;o &amp;#233; por acaso que aparecem as mais divertidas analogias para o ato de fazer coc&amp;#244;: &amp;#8220;n&amp;#250;mero dois&amp;#8221; &amp;#233; a mais sutil, &amp;#8220;levar vida de rei&amp;#8221; est&amp;#225; mais para um momento de desarranjo, quando o trono &amp;#233; mais assediado, o singelo &amp;#8220;estava obrando&amp;#8221; &amp;#233; minha predileta e n&amp;#227;o consegui achar um porqu&amp;#234; razo&amp;#225;vel para ela; depois dessas h&amp;#225; outras mais fortes, que prefiro deixar de lado, dado o hor&amp;#225;rio impr&amp;#243;prio para palavras mais duras.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Todo esse pre&amp;#226;mbulo s&amp;#243; para dizer que tenho o h&amp;#225;bito de ler enquanto fa&amp;#231;o coc&amp;#244;. Isso mesmo. Deveria ser simples assim, mas sei que alguns me achar&amp;#227;o um e.t. por dizer isso, apesar de um mont&amp;#227;o de gente ter h&amp;#225;bito similar &amp;#8211; e, por favor, n&amp;#227;o tentem imaginar a cena.&lt;br /&gt;
Desde que me dou por gente &amp;#8211; e isso inclui, necessariamente, saber ler e conseguir ir ao banheiro sozinho &amp;#8211; tenho lembran&amp;#231;as de haver um arm&amp;#225;rio do banheiro recheado de revistas em quadrinhos. Pilhas e pilhas, que tinham uma destina&amp;#231;&amp;#227;o &amp;#250;nica: passatempo ao vaso. Devo ter lido cada uma algumas dezenas de vezes, porque a rotatividade das revistas n&amp;#227;o era proporcional &amp;#224; freq&amp;#252;&amp;#234;ncia ao trono. &lt;br /&gt;
Ruim foi quando mudamos do apartamento para uma casa maior e a quantidade de banheiros era bastante superior &amp;#224;s pilhas de revistas, que ficaram restritas a um armarinho...&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Ultimamente, depois que abandonei os quadrinhos, resolvi colocar um livro &amp;#224; m&amp;#227;o; enquanto todo mundo tem um livro de cabeceira, eu tinha um de vaso (e outro na cabeceira, para n&amp;#227;o ser de todo esquisito). Acho que essa iniciativa n&amp;#227;o vingou mais por conta da m&amp;#225; sele&amp;#231;&amp;#227;o dos t&amp;#237;tulos que pela op&amp;#231;&amp;#227;o em si.&lt;br /&gt;
H&amp;#225; um bom tempo, mudei de estrat&amp;#233;gia e disponho de uma revista semanal no banheiro. &amp;#201; a conta exata de ler ela inteira e vencer a semana &amp;#8211; parece que foram feitos um para o outro, at&amp;#233; boa parte do conte&amp;#250;do dela, que trata de pol&amp;#237;tica, combina com o ambiente...&lt;br /&gt;
Mas, recentemente, mais precisamente depois do Natal, resolvi colocar uns livrinhos de palavras-cruzadas. Par&amp;#234;ntese: sempre adorei palavras-cruzada, mas elas estavam em desprest&amp;#237;gio comigo. At&amp;#233; que nesse &amp;#250;ltimo feriado, em viagem para Beag&amp;#225;, ressuscitei o h&amp;#225;bito. Fecha par&amp;#234;ntese. Uma p&amp;#225;gina de Diretas, no n&amp;#237;vel dif&amp;#237;cil, &amp;#233; o tempo exata para a fun&amp;#231;&amp;#227;o.&lt;br /&gt;
Aos cr&amp;#237;ticos do rumo dessa prosa, pergunto: e voc&amp;#234;s, caras-p&amp;#225;lida, qual &amp;#233; sua ocupa&amp;#231;&amp;#227;o nessas horas? Contar cer&amp;#226;micas da parede? Tirar meleca do nariz? Cantar? Cada louco com suas manias, certo?&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Eu poderia substituir todo esse texto anterior por um singelo &amp;#8220;Tenho feito palavras-cruzadas&amp;#8221;, porque o tema que quero abordar ainda est&amp;#225; por vir, mas isso n&amp;#227;o teria a menor gra&amp;#231;a.&lt;br /&gt;
Dia desses, ao pegar meu livrinho no banheiro, observei uma p&amp;#225;gina, quase totalmente preenchida, e me debrucei (no sentido conotativo, crian&amp;#231;as) sobre as palavras faltantes. Eis que me deparo com uma: &amp;#8220;calip&amp;#237;gias&amp;#8221;; ao ver a descri&amp;#231;&amp;#227;o, tive um acesso incontrol&amp;#225;vel de riso. Demorei longos minutos para me recompor. O que me pegou foi a imprevisibilidade: &amp;#8220;Aquelas que t&amp;#234;m belas n&amp;#225;degas&amp;#8221;.&lt;br /&gt;
Assim sendo, se algu&amp;#233;m te chamar de calip&amp;#237;gia na rua, n&amp;#227;o o mande ir cagar.&lt;/p&gt;&lt;div class=&quot;item_footer&quot;&gt;&lt;p&gt;&lt;small&gt;Powered by &lt;a href=&quot;http://b2evolution.net/&quot;&gt;b2evolution&lt;/a&gt;.&lt;/small&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;</description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Vamos combinar um coisa? Coc&#244; &#233; um mito. Todo mundo faz todo dia &#8211; quem n&#227;o consegue essa freq&#252;&#234;ncia morre de inveja dos mais &#8220;ass&#237;duos&#8221; -, &#233; da natureza humana, mas ai de quem puxar esse assunto em p&#250;blico. &#201; transgress&#227;o das mais graves.<br />
N&#227;o &#233; por acaso que aparecem as mais divertidas analogias para o ato de fazer coc&#244;: &#8220;n&#250;mero dois&#8221; &#233; a mais sutil, &#8220;levar vida de rei&#8221; est&#225; mais para um momento de desarranjo, quando o trono &#233; mais assediado, o singelo &#8220;estava obrando&#8221; &#233; minha predileta e n&#227;o consegui achar um porqu&#234; razo&#225;vel para ela; depois dessas h&#225; outras mais fortes, que prefiro deixar de lado, dado o hor&#225;rio impr&#243;prio para palavras mais duras.</p>

<p>Todo esse pre&#226;mbulo s&#243; para dizer que tenho o h&#225;bito de ler enquanto fa&#231;o coc&#244;. Isso mesmo. Deveria ser simples assim, mas sei que alguns me achar&#227;o um e.t. por dizer isso, apesar de um mont&#227;o de gente ter h&#225;bito similar &#8211; e, por favor, n&#227;o tentem imaginar a cena.<br />
Desde que me dou por gente &#8211; e isso inclui, necessariamente, saber ler e conseguir ir ao banheiro sozinho &#8211; tenho lembran&#231;as de haver um arm&#225;rio do banheiro recheado de revistas em quadrinhos. Pilhas e pilhas, que tinham uma destina&#231;&#227;o &#250;nica: passatempo ao vaso. Devo ter lido cada uma algumas dezenas de vezes, porque a rotatividade das revistas n&#227;o era proporcional &#224; freq&#252;&#234;ncia ao trono. <br />
Ruim foi quando mudamos do apartamento para uma casa maior e a quantidade de banheiros era bastante superior &#224;s pilhas de revistas, que ficaram restritas a um armarinho...</p>

<p>Ultimamente, depois que abandonei os quadrinhos, resolvi colocar um livro &#224; m&#227;o; enquanto todo mundo tem um livro de cabeceira, eu tinha um de vaso (e outro na cabeceira, para n&#227;o ser de todo esquisito). Acho que essa iniciativa n&#227;o vingou mais por conta da m&#225; sele&#231;&#227;o dos t&#237;tulos que pela op&#231;&#227;o em si.<br />
H&#225; um bom tempo, mudei de estrat&#233;gia e disponho de uma revista semanal no banheiro. &#201; a conta exata de ler ela inteira e vencer a semana &#8211; parece que foram feitos um para o outro, at&#233; boa parte do conte&#250;do dela, que trata de pol&#237;tica, combina com o ambiente...<br />
Mas, recentemente, mais precisamente depois do Natal, resolvi colocar uns livrinhos de palavras-cruzadas. Par&#234;ntese: sempre adorei palavras-cruzada, mas elas estavam em desprest&#237;gio comigo. At&#233; que nesse &#250;ltimo feriado, em viagem para Beag&#225;, ressuscitei o h&#225;bito. Fecha par&#234;ntese. Uma p&#225;gina de Diretas, no n&#237;vel dif&#237;cil, &#233; o tempo exata para a fun&#231;&#227;o.<br />
Aos cr&#237;ticos do rumo dessa prosa, pergunto: e voc&#234;s, caras-p&#225;lida, qual &#233; sua ocupa&#231;&#227;o nessas horas? Contar cer&#226;micas da parede? Tirar meleca do nariz? Cantar? Cada louco com suas manias, certo?</p>

<p>Eu poderia substituir todo esse texto anterior por um singelo &#8220;Tenho feito palavras-cruzadas&#8221;, porque o tema que quero abordar ainda est&#225; por vir, mas isso n&#227;o teria a menor gra&#231;a.<br />
Dia desses, ao pegar meu livrinho no banheiro, observei uma p&#225;gina, quase totalmente preenchida, e me debrucei (no sentido conotativo, crian&#231;as) sobre as palavras faltantes. Eis que me deparo com uma: &#8220;calip&#237;gias&#8221;; ao ver a descri&#231;&#227;o, tive um acesso incontrol&#225;vel de riso. Demorei longos minutos para me recompor. O que me pegou foi a imprevisibilidade: &#8220;Aquelas que t&#234;m belas n&#225;degas&#8221;.<br />
Assim sendo, se algu&#233;m te chamar de calip&#237;gia na rua, n&#227;o o mande ir cagar.</p><div class="item_footer"><p><small>Powered by <a href="http://b2evolution.net/">b2evolution</a>.</small></p></div>]]></content:encoded>
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		</item>
				<item>
			<title>Ai, CARAI...</title>
			<link>http://www.guiolivieri.com.br/index.php/ai-carai</link>
			<pubDate>Fri, 07 Mar 2008 12:10:53 +0000</pubDate>			<dc:creator>oproprio</dc:creator>
			<category domain="main">Textos</category>			<guid isPermaLink="false">31@http://www.guiolivieri.com.br/</guid>
						<description>&lt;p&gt;Eu acho sonho uma coisa muito louca. Como explicar esse fen&amp;#244;meno que, ao mesmo tempo que te coloca com a camisa 9 do Meng&amp;#227;o, num Maracan&amp;#227; lotado, resolvendo a partida do campeonato, te p&amp;#245;e pelado num baile de formatura?&lt;br /&gt;
Sei que tem gente que estuda isso, profissionais que conseguem tra&amp;#231;ar alguma caracter&amp;#237;stica sua a partir de suas experi&amp;#234;ncias vividas durante o sono. Mas eu n&amp;#227;o tento nem quero entender.&lt;br /&gt;
E rec&amp;#233;m-nascidos, ent&amp;#227;o? T&amp;#225; que, desde algum momento, ainda no ventre da m&amp;#227;e, eles j&amp;#225; guardam informa&amp;#231;&amp;#245;es e sensa&amp;#231;&amp;#245;es que a genitora experimenta &amp;#8211; acredito piamente nisto. Mas o que ser&amp;#225; que um nen&amp;#233;m, de alguns dias de vida, sonha? Porque sonha, sim senhor. Eu vi isso nas minhas bebezinhas.&lt;br /&gt;
Particularmente, passo por fases de sonhar muito &amp;#8211; ou, ao menos, ter registros de muitos sonhos &amp;#8211; e per&amp;#237;odos de absoluta falta de viagens noturnas. Atualmente, estou num per&amp;#237;odo de seca. Apesar disso, alguns temas s&amp;#227;o recorrentes, a saber:&lt;br /&gt;
1) Pelo menos uma vez por semana, me vejo em gramados, de chuteiras, chutando longe minha frustra&amp;#231;&amp;#227;o por ser um aleijado para o futebol. Nesses dois &amp;#250;ltimos anos - desde minha aposentadoria for&amp;#231;ada - &amp;#233; freq&amp;#252;ente eu voltar a campo, no mesmo gramado sint&amp;#233;tico em que deixei meu tornozelo, com os mesmos companheiros de pelada, e bater uma bolinha. &amp;#192;s vezes, sou o craque do time; as vezes, em contrapartida, cometo erros bisonhos, mais fiel ao meu desempenho pr&amp;#233;-contus&amp;#227;o;&lt;br /&gt;
2) Esse sonho j&amp;#225; foi mais ass&amp;#237;duo h&amp;#225; alguns anos, mas n&amp;#227;o &amp;#233; incomum eu sonhar que estou fumando. Afora uma experi&amp;#234;ncia frustrada na adolesc&amp;#234;ncia (que, por sinal, merece um texto s&amp;#243; para ela), que n&amp;#227;o durou nem um ma&amp;#231;o, nunca fumei. Nem legalizado nem extra-oficiais. Mas, vira e mexe, estou posando com um cigarro entre os dedos; e vale qualquer ambiente. Vai saber o que isso representa;&lt;br /&gt;
3) Outro, que j&amp;#225; foi habitu&amp;#233; nas minhas noites, era a dificuldade em atravessar a rua: eu sempre tinha um espa&amp;#231;&amp;#227;o para passar, at&amp;#233; que chegasse algum carro, tentava correr pelo asfalto, mas minhas pernas pesavam horrores e nunca conseguia alcan&amp;#231;ar a outra margem. Dois fatos curiosos sobre esses sonhos eram (a) eu sempre acordava antes que carro me atingisse, e (b) era sempre no mesmo lugar. Para ser bastante preciso, sempre no eixinho L norte, sentido rodovi&amp;#225;ria, talvez na altura da 206N. S&amp;#243; n&amp;#227;o me perguntem porque eu precisava atravessar a rua nesse local, mas era l&amp;#225; que eu tentava quando sonhava. E era l&amp;#225; que eu empacava. Diacho de sonho estranho;&lt;br /&gt;
4) O &amp;#250;ltimo, mais constrangedor, era aparecer de cueca em locais p&amp;#250;blicos. Que mania bizarra era essa de esquecer de por roupas antes de sair de casa? Pior &amp;#233; que n&amp;#227;o havia uma alma caridosa para me alertar antes que eu chegasse no meu destino. Odiava esse sonho, mas &amp;#233; outro que n&amp;#227;o me aparece h&amp;#225; muito tempo.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;At&amp;#233; ontem - eu j&amp;#225; pensava em escrever sobre sonhos - eu teria parado por aqui, tentando fazer uma piadinha sobre meus sonhos de cuecas e despedindo-me. Mas minhas filhas, sempre elas, vivem oferecendo experi&amp;#234;ncias incr&amp;#237;veis, que preciso dividir com voc&amp;#234;s. Vamos &amp;#224; segunda parte, ent&amp;#227;o.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Plena ter&amp;#231;a-feira, 5:40 da manh&amp;#227;, faltando vinte sagrados minutos para meu despertador tocar, minha filha aparece ao p&amp;#233; da cama pedindo um teco do meu travesseiro.&lt;br /&gt;
- Posso dormir aqui, papai?&lt;br /&gt;
- Filhinha, por que voc&amp;#234; n&amp;#227;o dorme na sua pr&amp;#243;pria cama?&lt;br /&gt;
- Sabe o que &amp;#233; papai, tem um monte de cachorros, brincando de circo sentados &amp;#224; minha cama, que ficam me dando sustos.&lt;br /&gt;
P&amp;#225;ra tudo. N&amp;#227;o s&amp;#227;o nem 6 da manh&amp;#227;, n&amp;#227;o tenho for&amp;#231;as nem para rir, quanto mais fazer alguma id&amp;#233;ia do que responder nessa situa&amp;#231;&amp;#227;o. Preciso de ajuda.&lt;br /&gt;
- Por gentileza, &amp;#233; da Central de Atendimentos para Respostas Antip&amp;#225;ticas Infantis?&lt;br /&gt;
- Sim, senhor, &amp;#233; da CARAI, atendente Geni falando. Em que posso estar ajudando? &amp;#8211; como toda boa operadora de telefone, a Geni abusa de ger&amp;#250;ndios. Comecei bem.&lt;br /&gt;
- Minha filha disse que tem um punhado de cachorros na cama dela, brincando de circ...&lt;br /&gt;
- Um instantinho, senhor, preciso de uma informa&amp;#231;&amp;#227;o por vez. O senhor disse cachorros, certo?&lt;br /&gt;
- Isso mesmo.&lt;br /&gt;
- Encontrei a categoria &amp;#8220;c&amp;#227;es&amp;#8221;. Serve?&lt;br /&gt;
- Acredito que sim.&lt;br /&gt;
- Qual ra&amp;#231;a?&lt;br /&gt;
- N&amp;#227;o fa&amp;#231;o id&amp;#233;ia, ela n&amp;#227;o disse.&lt;br /&gt;
- Senhor, se o senhor n&amp;#227;o me informar a ra&amp;#231;a dos c&amp;#227;es, estarei lan&amp;#231;ando &amp;#8220;indeterminado&amp;#8221;, mas isso pode limitar as pesquisas subseq&amp;#252;entes. O senhor me autoriza n&amp;#227;o especificar a ra&amp;#231;a?&lt;br /&gt;
- Claro, claro. Mas v&amp;#225; r&amp;#225;pido porque ela est&amp;#225; me olhando com cara de pidona e pode come&amp;#231;ar a gritar a qualquer momento.&lt;br /&gt;
- Senhor, preciso deixar claro que, caso a consulta n&amp;#227;o apresente resultado satisfat&amp;#243;rio por causa da n&amp;#227;o especifica&amp;#231;&amp;#227;o da ra&amp;#231;a dos c&amp;#227;es, a cobran&amp;#231;a pela liga&amp;#231;&amp;#227;o estar&amp;#225; sendo efetuada assim mesmo.&lt;br /&gt;
- T&amp;#225; bom, t&amp;#225; bom, mas ande logo, por favor.&lt;br /&gt;
- Quantos cachorros?&lt;br /&gt;
- Tr&amp;#234;s &amp;#8211; menti para n&amp;#227;o escutar aquela ladainha de novo.&lt;br /&gt;
- Ok, 3 c&amp;#227;es de ra&amp;#231;a indeterminada. O senhor est&amp;#225; com sorte porque, para essa quantidade de animais, n&amp;#227;o h&amp;#225; a necessidade de estar sendo especificado do sexo. O que mais?&lt;br /&gt;
- Eles brincavam de circo.&lt;br /&gt;
- Complicada essa, hein? Deixe-me ver o que posso encontrar... &amp;#8211; sons de teclas sendo pressionadas &amp;#8211; Ah&amp;#225;! &amp;#8220;Brincadeiras de fim de semana &amp;#8211; clube, circo, cinema e zool&amp;#243;gico&amp;#8221;. Exatamente o que o senhor precisa.&lt;br /&gt;
- &amp;#211;timo, &amp;#243;timo. Bom eles brincavam sentados na cama e estavam assus...&lt;br /&gt;
- O senhor disse &amp;#8220;sentados&amp;#8221;?&lt;br /&gt;
- Isso mesmo&lt;br /&gt;
- Lamento senhor, mas essas brincadeiras, segundo meu sistema, s&amp;#243; podem ser executadas por c&amp;#227;es sobre as patas, rolando ou fingindo de mortos.&lt;br /&gt;
- N&amp;#227;o tem nada sobre cachorros sentados?&lt;br /&gt;
- S&amp;#243; se estivessem brincado de andoleta, passar o anel, adedonha ou chicotinho queimado.&lt;br /&gt;
- Mas preciso dar uma resposta a ela.&lt;br /&gt;
- Lamento, senhor, mas a n&amp;#227;o informa&amp;#231;&amp;#227;o da ra&amp;#231;a pode ter sido determinante. Quem sabe poodles n&amp;#227;o possam brincar sentados? Eles s&amp;#227;o os preferidos das crian&amp;#231;as.&lt;br /&gt;
- N&amp;#227;o, n&amp;#227;o eram poodles. Obrigado.&lt;br /&gt;
- A CARAI agradece sua liga&amp;#231;&amp;#227;o e desej...&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;- Deita aqui, filha.&lt;/p&gt;&lt;div class=&quot;item_footer&quot;&gt;&lt;p&gt;&lt;small&gt;Powered by &lt;a href=&quot;http://b2evolution.net/&quot;&gt;b2evolution&lt;/a&gt;.&lt;/small&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;</description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Eu acho sonho uma coisa muito louca. Como explicar esse fen&#244;meno que, ao mesmo tempo que te coloca com a camisa 9 do Meng&#227;o, num Maracan&#227; lotado, resolvendo a partida do campeonato, te p&#245;e pelado num baile de formatura?<br />
Sei que tem gente que estuda isso, profissionais que conseguem tra&#231;ar alguma caracter&#237;stica sua a partir de suas experi&#234;ncias vividas durante o sono. Mas eu n&#227;o tento nem quero entender.<br />
E rec&#233;m-nascidos, ent&#227;o? T&#225; que, desde algum momento, ainda no ventre da m&#227;e, eles j&#225; guardam informa&#231;&#245;es e sensa&#231;&#245;es que a genitora experimenta &#8211; acredito piamente nisto. Mas o que ser&#225; que um nen&#233;m, de alguns dias de vida, sonha? Porque sonha, sim senhor. Eu vi isso nas minhas bebezinhas.<br />
Particularmente, passo por fases de sonhar muito &#8211; ou, ao menos, ter registros de muitos sonhos &#8211; e per&#237;odos de absoluta falta de viagens noturnas. Atualmente, estou num per&#237;odo de seca. Apesar disso, alguns temas s&#227;o recorrentes, a saber:<br />
1) Pelo menos uma vez por semana, me vejo em gramados, de chuteiras, chutando longe minha frustra&#231;&#227;o por ser um aleijado para o futebol. Nesses dois &#250;ltimos anos - desde minha aposentadoria for&#231;ada - &#233; freq&#252;ente eu voltar a campo, no mesmo gramado sint&#233;tico em que deixei meu tornozelo, com os mesmos companheiros de pelada, e bater uma bolinha. &#192;s vezes, sou o craque do time; as vezes, em contrapartida, cometo erros bisonhos, mais fiel ao meu desempenho pr&#233;-contus&#227;o;<br />
2) Esse sonho j&#225; foi mais ass&#237;duo h&#225; alguns anos, mas n&#227;o &#233; incomum eu sonhar que estou fumando. Afora uma experi&#234;ncia frustrada na adolesc&#234;ncia (que, por sinal, merece um texto s&#243; para ela), que n&#227;o durou nem um ma&#231;o, nunca fumei. Nem legalizado nem extra-oficiais. Mas, vira e mexe, estou posando com um cigarro entre os dedos; e vale qualquer ambiente. Vai saber o que isso representa;<br />
3) Outro, que j&#225; foi habitu&#233; nas minhas noites, era a dificuldade em atravessar a rua: eu sempre tinha um espa&#231;&#227;o para passar, at&#233; que chegasse algum carro, tentava correr pelo asfalto, mas minhas pernas pesavam horrores e nunca conseguia alcan&#231;ar a outra margem. Dois fatos curiosos sobre esses sonhos eram (a) eu sempre acordava antes que carro me atingisse, e (b) era sempre no mesmo lugar. Para ser bastante preciso, sempre no eixinho L norte, sentido rodovi&#225;ria, talvez na altura da 206N. S&#243; n&#227;o me perguntem porque eu precisava atravessar a rua nesse local, mas era l&#225; que eu tentava quando sonhava. E era l&#225; que eu empacava. Diacho de sonho estranho;<br />
4) O &#250;ltimo, mais constrangedor, era aparecer de cueca em locais p&#250;blicos. Que mania bizarra era essa de esquecer de por roupas antes de sair de casa? Pior &#233; que n&#227;o havia uma alma caridosa para me alertar antes que eu chegasse no meu destino. Odiava esse sonho, mas &#233; outro que n&#227;o me aparece h&#225; muito tempo.</p>

<p>At&#233; ontem - eu j&#225; pensava em escrever sobre sonhos - eu teria parado por aqui, tentando fazer uma piadinha sobre meus sonhos de cuecas e despedindo-me. Mas minhas filhas, sempre elas, vivem oferecendo experi&#234;ncias incr&#237;veis, que preciso dividir com voc&#234;s. Vamos &#224; segunda parte, ent&#227;o.</p>

<p>Plena ter&#231;a-feira, 5:40 da manh&#227;, faltando vinte sagrados minutos para meu despertador tocar, minha filha aparece ao p&#233; da cama pedindo um teco do meu travesseiro.<br />
- Posso dormir aqui, papai?<br />
- Filhinha, por que voc&#234; n&#227;o dorme na sua pr&#243;pria cama?<br />
- Sabe o que &#233; papai, tem um monte de cachorros, brincando de circo sentados &#224; minha cama, que ficam me dando sustos.<br />
P&#225;ra tudo. N&#227;o s&#227;o nem 6 da manh&#227;, n&#227;o tenho for&#231;as nem para rir, quanto mais fazer alguma id&#233;ia do que responder nessa situa&#231;&#227;o. Preciso de ajuda.<br />
- Por gentileza, &#233; da Central de Atendimentos para Respostas Antip&#225;ticas Infantis?<br />
- Sim, senhor, &#233; da CARAI, atendente Geni falando. Em que posso estar ajudando? &#8211; como toda boa operadora de telefone, a Geni abusa de ger&#250;ndios. Comecei bem.<br />
- Minha filha disse que tem um punhado de cachorros na cama dela, brincando de circ...<br />
- Um instantinho, senhor, preciso de uma informa&#231;&#227;o por vez. O senhor disse cachorros, certo?<br />
- Isso mesmo.<br />
- Encontrei a categoria &#8220;c&#227;es&#8221;. Serve?<br />
- Acredito que sim.<br />
- Qual ra&#231;a?<br />
- N&#227;o fa&#231;o id&#233;ia, ela n&#227;o disse.<br />
- Senhor, se o senhor n&#227;o me informar a ra&#231;a dos c&#227;es, estarei lan&#231;ando &#8220;indeterminado&#8221;, mas isso pode limitar as pesquisas subseq&#252;entes. O senhor me autoriza n&#227;o especificar a ra&#231;a?<br />
- Claro, claro. Mas v&#225; r&#225;pido porque ela est&#225; me olhando com cara de pidona e pode come&#231;ar a gritar a qualquer momento.<br />
- Senhor, preciso deixar claro que, caso a consulta n&#227;o apresente resultado satisfat&#243;rio por causa da n&#227;o especifica&#231;&#227;o da ra&#231;a dos c&#227;es, a cobran&#231;a pela liga&#231;&#227;o estar&#225; sendo efetuada assim mesmo.<br />
- T&#225; bom, t&#225; bom, mas ande logo, por favor.<br />
- Quantos cachorros?<br />
- Tr&#234;s &#8211; menti para n&#227;o escutar aquela ladainha de novo.<br />
- Ok, 3 c&#227;es de ra&#231;a indeterminada. O senhor est&#225; com sorte porque, para essa quantidade de animais, n&#227;o h&#225; a necessidade de estar sendo especificado do sexo. O que mais?<br />
- Eles brincavam de circo.<br />
- Complicada essa, hein? Deixe-me ver o que posso encontrar... &#8211; sons de teclas sendo pressionadas &#8211; Ah&#225;! &#8220;Brincadeiras de fim de semana &#8211; clube, circo, cinema e zool&#243;gico&#8221;. Exatamente o que o senhor precisa.<br />
- &#211;timo, &#243;timo. Bom eles brincavam sentados na cama e estavam assus...<br />
- O senhor disse &#8220;sentados&#8221;?<br />
- Isso mesmo<br />
- Lamento senhor, mas essas brincadeiras, segundo meu sistema, s&#243; podem ser executadas por c&#227;es sobre as patas, rolando ou fingindo de mortos.<br />
- N&#227;o tem nada sobre cachorros sentados?<br />
- S&#243; se estivessem brincado de andoleta, passar o anel, adedonha ou chicotinho queimado.<br />
- Mas preciso dar uma resposta a ela.<br />
- Lamento, senhor, mas a n&#227;o informa&#231;&#227;o da ra&#231;a pode ter sido determinante. Quem sabe poodles n&#227;o possam brincar sentados? Eles s&#227;o os preferidos das crian&#231;as.<br />
- N&#227;o, n&#227;o eram poodles. Obrigado.<br />
- A CARAI agradece sua liga&#231;&#227;o e desej...</p>

<p>- Deita aqui, filha.</p><div class="item_footer"><p><small>Powered by <a href="http://b2evolution.net/">b2evolution</a>.</small></p></div>]]></content:encoded>
								<comments>http://www.guiolivieri.com.br/index.php/ai-carai#comments</comments>
		</item>
				<item>
			<title>Um qualquer</title>
			<link>http://www.guiolivieri.com.br/index.php/um-qualquer</link>
			<pubDate>Fri, 07 Mar 2008 12:07:31 +0000</pubDate>			<dc:creator>oproprio</dc:creator>
			<category domain="main">Textos</category>			<guid isPermaLink="false">30@http://www.guiolivieri.com.br/</guid>
						<description>&lt;p&gt;Hoje estou me sentindo como um qualquer.&lt;br /&gt;
Apesar de n&amp;#227;o arrotar isso aos quatro cantos, a vida inteira me senti diferenciado, por n&amp;#227;o fazer parte &amp;#8220;daquela&amp;#8221; gente. Participei do grupo seleto, desfrutei de seus benef&amp;#237;cios, ri disfar&amp;#231;adamente dos outros, por n&amp;#227;o serem como n&amp;#243;s.&lt;br /&gt;
Fosse num sol de rachar ou na chuva torrencial, estava pronto para o que desse e viesse, contrastando com os desprovidos, entregues &amp;#224; pr&amp;#243;pria sorte, ao l&amp;#233;u. Pobres almas carentes.&lt;br /&gt;
E hoje, logo hoje, dia especial &amp;#8211; que faz com que o ano seja diferente, maior, bissexto &amp;#8211; me dei conta que n&amp;#227;o sou mais quem eu era; n&amp;#227;o sou mais um especial, escolhido, quase predestinado. Ca&amp;#237; na vala comum, onde encontra-se quase toda a popula&amp;#231;&amp;#227;o mundial.&lt;br /&gt;
N&amp;#227;o que as pessoas ditas comuns sejam piores, menores ou mais desprovidas, mas elas n&amp;#227;o t&amp;#234;m mais aquele &amp;#8220;que&amp;#8221;, que as diferencia. S&amp;#227;o, puramente, normais. E terei que viver, a partir de agora, com essa no&amp;#231;&amp;#227;o de normalidade em mim.&lt;br /&gt;
Daqui a pouco, como um comum, terei que partir para as solu&amp;#231;&amp;#245;es paliativas, pr&amp;#243;prias &amp;#224; minha casta, para parecer um especial. &amp;#201; um pequeno disfarce &amp;#224; minha nova condi&amp;#231;&amp;#227;o, que, na maioria das situa&amp;#231;&amp;#245;es, conceder-me-&amp;#225; o status outrora perdido, aos olhares mais desatentos. Engodo puro.&lt;br /&gt;
	Hoje mesmo, ao sair de casa, j&amp;#225; sofri os reflexos da minha recente realidade: um chuvisco me molhou a careca. &amp;#201; isso mesmo, senhoras e senhores, pela primeira vez perdi meu guarda-chuva.&lt;/p&gt;&lt;div class=&quot;item_footer&quot;&gt;&lt;p&gt;&lt;small&gt;Powered by &lt;a href=&quot;http://b2evolution.net/&quot;&gt;b2evolution&lt;/a&gt;.&lt;/small&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;</description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Hoje estou me sentindo como um qualquer.<br />
Apesar de n&#227;o arrotar isso aos quatro cantos, a vida inteira me senti diferenciado, por n&#227;o fazer parte &#8220;daquela&#8221; gente. Participei do grupo seleto, desfrutei de seus benef&#237;cios, ri disfar&#231;adamente dos outros, por n&#227;o serem como n&#243;s.<br />
Fosse num sol de rachar ou na chuva torrencial, estava pronto para o que desse e viesse, contrastando com os desprovidos, entregues &#224; pr&#243;pria sorte, ao l&#233;u. Pobres almas carentes.<br />
E hoje, logo hoje, dia especial &#8211; que faz com que o ano seja diferente, maior, bissexto &#8211; me dei conta que n&#227;o sou mais quem eu era; n&#227;o sou mais um especial, escolhido, quase predestinado. Ca&#237; na vala comum, onde encontra-se quase toda a popula&#231;&#227;o mundial.<br />
N&#227;o que as pessoas ditas comuns sejam piores, menores ou mais desprovidas, mas elas n&#227;o t&#234;m mais aquele &#8220;que&#8221;, que as diferencia. S&#227;o, puramente, normais. E terei que viver, a partir de agora, com essa no&#231;&#227;o de normalidade em mim.<br />
Daqui a pouco, como um comum, terei que partir para as solu&#231;&#245;es paliativas, pr&#243;prias &#224; minha casta, para parecer um especial. &#201; um pequeno disfarce &#224; minha nova condi&#231;&#227;o, que, na maioria das situa&#231;&#245;es, conceder-me-&#225; o status outrora perdido, aos olhares mais desatentos. Engodo puro.<br />
	Hoje mesmo, ao sair de casa, j&#225; sofri os reflexos da minha recente realidade: um chuvisco me molhou a careca. &#201; isso mesmo, senhoras e senhores, pela primeira vez perdi meu guarda-chuva.</p><div class="item_footer"><p><small>Powered by <a href="http://b2evolution.net/">b2evolution</a>.</small></p></div>]]></content:encoded>
								<comments>http://www.guiolivieri.com.br/index.php/um-qualquer#comments</comments>
		</item>
				<item>
			<title>Eu protesto, chefia!</title>
			<link>http://www.guiolivieri.com.br/index.php/eu-protesto-chefia</link>
			<pubDate>Fri, 07 Mar 2008 12:03:17 +0000</pubDate>			<dc:creator>oproprio</dc:creator>
			<category domain="main">Textos</category>			<guid isPermaLink="false">29@http://www.guiolivieri.com.br/</guid>
						<description>&lt;p&gt;De repente, corta o vento gelado (do ar condicionado) desta manh&amp;#227; de ter&amp;#231;a-feira um som ruidoso. &amp;#201; uma corneta, que d&amp;#225; o tom para uma s&amp;#233;rie de outros apetrechos barulhentos advindos da faculdade vizinha. Apitos, pandeiros, batuques e gritos de guerra aumentam o grito original da corneta.&lt;br /&gt;
Olho pela janela e vejo um grupo de estudantes sair pelo port&amp;#227;o lateral da institui&amp;#231;&amp;#227;o de ensino e lembro-me dos cara-pintadas durante o governo Collor - movimento que neglicenciei, quando era estudante da unidade UDF do Objetivo. Recordo-me bem que, num dia, alguns colegas se empetecaram para protestar na esplanada, encerrando as aulas naquele turno, e quase morri de achar bom porque estava prestes a zerar o Alex Kidd e pude ir mais cedo para casa para jogar. N&amp;#227;o espalhem isso. S&amp;#233;rio. Morro de vergonha de lembrar que n&amp;#227;o fiz parte de um movimento alegre e saud&amp;#225;vel porque era um apolitizado-nerd do marca maior.&lt;br /&gt;
Voltando &amp;#224; faculdade, os estudantes ruidosos n&amp;#227;o passam de uns 20, 30 no m&amp;#225;ximo. Isso me remete a outra &amp;#233;poca, quando eu, j&amp;#225; universit&amp;#225;rio engajado, sempre fiz parte dos movimentos estudantis a e acad&amp;#234;micos, e pelejava horrores para mobilizar os apolitizados-nerds que me cercavam, fosse para uma melhora departamental, os jogos universit&amp;#225;rios ou um churrasco de confraterniza&amp;#231;&amp;#227;o (em ordem crescente de prioridade, frise-se). Fiquei imaginando o sofrimento dos organizadores daquela passeata ali embaixo em angariar simpatizantes pela causa.&lt;br /&gt;
Falando nisso, qual seria a causa abra&amp;#231;ada pelo grupo? Seria acad&amp;#234;mica? Pol&amp;#237;tica? Est&amp;#227;o, em sua maioria, vestidos de roupas vermelhas; ent&amp;#227;o, a coisa foi premeditada, o que aumenta minha admira&amp;#231;&amp;#227;o pelo protesto e minha consterna&amp;#231;&amp;#227;o pela baixa ades&amp;#227;o. Descubro-me morrendo de curiosidade para saber o motivo da manifesta&amp;#231;&amp;#227;o...&lt;br /&gt;
Nisso eles saem da insitui&amp;#231;&amp;#227;o e descem, rumando a avenida W4 e o pr&amp;#233;dio que estou. A descida n&amp;#227;o dura mais que um minuto, que acompanho atentamente. Est&amp;#227;o sorridentes. N&amp;#227;o interrompem o tr&amp;#226;nsito - provavelmente por n&amp;#227;o terem estrutura num&amp;#233;rica para tal - e aguardam paciente e ruidosamente para atravessarem a rua. Fico em p&amp;#233; para observar melhor, e porque eles j&amp;#225; est&amp;#227;o no p&amp;#233; do pr&amp;#233;dio e n&amp;#227;o os vejo de minha cadeira. Eles somem embaixo da marquise e eu desejo estar com eles. Sento-me e come&amp;#231;o a escrever essas linhas.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Agora, enquanto encerro este texto, a maioria dos instrumentos j&amp;#225; calou. Escuto apenas um pandeiro mal-tocado, num pagode de &amp;#250;ltima categoria - come&amp;#231;ado 30 segundos depois de sumirem na marquise - que este grupo de &quot;at&amp;#244;as&quot; toca no boteco ao lado, embebedando-se de cerveja &amp;#224;s 10h da manh&amp;#227;, matando aula. Vagabundos!&lt;/p&gt;&lt;div class=&quot;item_footer&quot;&gt;&lt;p&gt;&lt;small&gt;Powered by &lt;a href=&quot;http://b2evolution.net/&quot;&gt;b2evolution&lt;/a&gt;.&lt;/small&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;</description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>De repente, corta o vento gelado (do ar condicionado) desta manh&#227; de ter&#231;a-feira um som ruidoso. &#201; uma corneta, que d&#225; o tom para uma s&#233;rie de outros apetrechos barulhentos advindos da faculdade vizinha. Apitos, pandeiros, batuques e gritos de guerra aumentam o grito original da corneta.<br />
Olho pela janela e vejo um grupo de estudantes sair pelo port&#227;o lateral da institui&#231;&#227;o de ensino e lembro-me dos cara-pintadas durante o governo Collor - movimento que neglicenciei, quando era estudante da unidade UDF do Objetivo. Recordo-me bem que, num dia, alguns colegas se empetecaram para protestar na esplanada, encerrando as aulas naquele turno, e quase morri de achar bom porque estava prestes a zerar o Alex Kidd e pude ir mais cedo para casa para jogar. N&#227;o espalhem isso. S&#233;rio. Morro de vergonha de lembrar que n&#227;o fiz parte de um movimento alegre e saud&#225;vel porque era um apolitizado-nerd do marca maior.<br />
Voltando &#224; faculdade, os estudantes ruidosos n&#227;o passam de uns 20, 30 no m&#225;ximo. Isso me remete a outra &#233;poca, quando eu, j&#225; universit&#225;rio engajado, sempre fiz parte dos movimentos estudantis a e acad&#234;micos, e pelejava horrores para mobilizar os apolitizados-nerds que me cercavam, fosse para uma melhora departamental, os jogos universit&#225;rios ou um churrasco de confraterniza&#231;&#227;o (em ordem crescente de prioridade, frise-se). Fiquei imaginando o sofrimento dos organizadores daquela passeata ali embaixo em angariar simpatizantes pela causa.<br />
Falando nisso, qual seria a causa abra&#231;ada pelo grupo? Seria acad&#234;mica? Pol&#237;tica? Est&#227;o, em sua maioria, vestidos de roupas vermelhas; ent&#227;o, a coisa foi premeditada, o que aumenta minha admira&#231;&#227;o pelo protesto e minha consterna&#231;&#227;o pela baixa ades&#227;o. Descubro-me morrendo de curiosidade para saber o motivo da manifesta&#231;&#227;o...<br />
Nisso eles saem da insitui&#231;&#227;o e descem, rumando a avenida W4 e o pr&#233;dio que estou. A descida n&#227;o dura mais que um minuto, que acompanho atentamente. Est&#227;o sorridentes. N&#227;o interrompem o tr&#226;nsito - provavelmente por n&#227;o terem estrutura num&#233;rica para tal - e aguardam paciente e ruidosamente para atravessarem a rua. Fico em p&#233; para observar melhor, e porque eles j&#225; est&#227;o no p&#233; do pr&#233;dio e n&#227;o os vejo de minha cadeira. Eles somem embaixo da marquise e eu desejo estar com eles. Sento-me e come&#231;o a escrever essas linhas.</p>

<p>Agora, enquanto encerro este texto, a maioria dos instrumentos j&#225; calou. Escuto apenas um pandeiro mal-tocado, num pagode de &#250;ltima categoria - come&#231;ado 30 segundos depois de sumirem na marquise - que este grupo de "at&#244;as" toca no boteco ao lado, embebedando-se de cerveja &#224;s 10h da manh&#227;, matando aula. Vagabundos!</p><div class="item_footer"><p><small>Powered by <a href="http://b2evolution.net/">b2evolution</a>.</small></p></div>]]></content:encoded>
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