Xampu
Benhê, acorda.
- Ahn?
- Nossa bebezona tá mesmo gripada, já levantei três vezes para acudir. Vá lá, por favor, porque ela está resmungando. Veja se é febre; se for, dê o antitérmico, tá bom?
- Ahn?
- Juvenal!
- Tô indo, tô indo...
Calçou os chinelos trocados e tropeçou duas vezes, sonolento, até alcançar a caminha, tentando encontrar uma boa razão para o porquê de, em plena época dos avanços tecnológicos e dos sistemas de informações, as crianças não terem uma tela de LCD na testa com informações básicas de temperatura, sono, fome, nível da bexiga, etc.
- Ô, filhinha, tudo bem?
- Ahnãuãhnanhuaãããããããh - foi, mais ou menos a resposta, em tom beeem choroso.
- Deixe o papai colocar o termômetro aqui.
Chegou a sonhar enquanto esperava o bipe.
- 38,5. O papai vai pegar o remedinho, tá?
- Nãããhnãuãhnanhuaããããããão.
- Eu volto num instante.
- Não, papai.
- É rápido, meu amor.
- Mas eu não quero o remédio.
- Por quê?
- Porque tem gosto de xampu.
Abafou, como pôde, o riso.
- Como assim, filha?
- Ué, papai, xampu. Sabe? O do cabelo.
- Eu sei o que é xampu, filha, mas como você sabe o gosto?
- Eu sei, oras.
- Você andou bebendo xampu? Olha, filha, não pode isso. Xampu não é de beber.
- Não bebi, papai, mas sei o gosto. Igual ao remedinho.
- Mas o remédio é sabor tutti-frutti...
- O que é tutti-frutti?
- É uma mistura de todas as frutas - arriscou uma tradução-livre com seu italiano nulo.
- Todas?
- Sim, todas.
- Tem morango, papai?
- Tem, filha.
- Tem banana, papai?
- Tem também, filha.
- Tem uva, papai?
- Claro que tem, filha - disse, já impaciente - tem todas as frutas misturadas.
- Até abacate, papai?
- Sim, filha, até abacate.
- Então não quero, porque não gosto de abacate.
- Já chega! – disse irritado por ter caído na arapuca armada pela filha, de apenas 3 anos - Vai tomar sim, porque a mamãe disse que precisa - diante do fracasso iminente, apelou para a autoridade máxima da casa, para acabar com a discussão.
- Então você toma um pouquinho, para eu ver que não é ruim o gosto?
- Tá bom, mas só um pouquinho.
Sujou os lábios com o tal remédio, fingiu estar provando um manjar dos deuses e acabou por ministrar a quantidade recomendada à pequena, que tomou a contragosto. Trocaram um "boa noite", ela logo se atracou com o travesseiro e ele voltou pra cama.
Ao deitar, acabou acordando a companheira.
- Era febre?
- Era.
- Deu o remédio?
- Após uma boa chiadeira, não escutou?
- Não. Venha cá, me dê um beijo e vamos dormir.
- Juvenal?
- Ahn?
- Que gosto de xampu é esse?
07.03.08 09:19:34, 
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