Um qualquer
Hoje estou me sentindo como um qualquer.
Apesar de não arrotar isso aos quatro cantos, a vida inteira me senti diferenciado, por não fazer parte “daquela” gente. Participei do grupo seleto, desfrutei de seus benefícios, ri disfarçadamente dos outros, por não serem como nós.
Fosse num sol de rachar ou na chuva torrencial, estava pronto para o que desse e viesse, contrastando com os desprovidos, entregues à própria sorte, ao léu. Pobres almas carentes.
E hoje, logo hoje, dia especial – que faz com que o ano seja diferente, maior, bissexto – me dei conta que não sou mais quem eu era; não sou mais um especial, escolhido, quase predestinado. Caí na vala comum, onde encontra-se quase toda a população mundial.
Não que as pessoas ditas comuns sejam piores, menores ou mais desprovidas, mas elas não têm mais aquele “que”, que as diferencia. São, puramente, normais. E terei que viver, a partir de agora, com essa noção de normalidade em mim.
Daqui a pouco, como um comum, terei que partir para as soluções paliativas, próprias à minha casta, para parecer um especial. É um pequeno disfarce à minha nova condição, que, na maioria das situações, conceder-me-á o status outrora perdido, aos olhares mais desatentos. Engodo puro.
Hoje mesmo, ao sair de casa, já sofri os reflexos da minha recente realidade: um chuvisco me molhou a careca. É isso mesmo, senhoras e senhores, pela primeira vez perdi meu guarda-chuva.
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07.03.08 09:07:31, 
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