Raimunda
Vamos combinar um coisa? Cocô é um mito. Todo mundo faz todo dia – quem não consegue essa freqüência morre de inveja dos mais “assíduos” -, é da natureza humana, mas ai de quem puxar esse assunto em público. É transgressão das mais graves.
Não é por acaso que aparecem as mais divertidas analogias para o ato de fazer cocô: “número dois” é a mais sutil, “levar vida de rei” está mais para um momento de desarranjo, quando o trono é mais assediado, o singelo “estava obrando” é minha predileta e não consegui achar um porquê razoável para ela; depois dessas há outras mais fortes, que prefiro deixar de lado, dado o horário impróprio para palavras mais duras.
Todo esse preâmbulo só para dizer que tenho o hábito de ler enquanto faço cocô. Isso mesmo. Deveria ser simples assim, mas sei que alguns me acharão um e.t. por dizer isso, apesar de um montão de gente ter hábito similar – e, por favor, não tentem imaginar a cena.
Desde que me dou por gente – e isso inclui, necessariamente, saber ler e conseguir ir ao banheiro sozinho – tenho lembranças de haver um armário do banheiro recheado de revistas em quadrinhos. Pilhas e pilhas, que tinham uma destinação única: passatempo ao vaso. Devo ter lido cada uma algumas dezenas de vezes, porque a rotatividade das revistas não era proporcional à freqüência ao trono.
Ruim foi quando mudamos do apartamento para uma casa maior e a quantidade de banheiros era bastante superior às pilhas de revistas, que ficaram restritas a um armarinho...
Ultimamente, depois que abandonei os quadrinhos, resolvi colocar um livro à mão; enquanto todo mundo tem um livro de cabeceira, eu tinha um de vaso (e outro na cabeceira, para não ser de todo esquisito). Acho que essa iniciativa não vingou mais por conta da má seleção dos títulos que pela opção em si.
Há um bom tempo, mudei de estratégia e disponho de uma revista semanal no banheiro. É a conta exata de ler ela inteira e vencer a semana – parece que foram feitos um para o outro, até boa parte do conteúdo dela, que trata de política, combina com o ambiente...
Mas, recentemente, mais precisamente depois do Natal, resolvi colocar uns livrinhos de palavras-cruzadas. Parêntese: sempre adorei palavras-cruzada, mas elas estavam em desprestígio comigo. Até que nesse último feriado, em viagem para Beagá, ressuscitei o hábito. Fecha parêntese. Uma página de Diretas, no nível difícil, é o tempo exata para a função.
Aos críticos do rumo dessa prosa, pergunto: e vocês, caras-pálida, qual é sua ocupação nessas horas? Contar cerâmicas da parede? Tirar meleca do nariz? Cantar? Cada louco com suas manias, certo?
Eu poderia substituir todo esse texto anterior por um singelo “Tenho feito palavras-cruzadas”, porque o tema que quero abordar ainda está por vir, mas isso não teria a menor graça.
Dia desses, ao pegar meu livrinho no banheiro, observei uma página, quase totalmente preenchida, e me debrucei (no sentido conotativo, crianças) sobre as palavras faltantes. Eis que me deparo com uma: “calipígias”; ao ver a descrição, tive um acesso incontrolável de riso. Demorei longos minutos para me recompor. O que me pegou foi a imprevisibilidade: “Aquelas que têm belas nádegas”.
Assim sendo, se alguém te chamar de calipígia na rua, não o mande ir cagar.
4 comments
Realmente grandes contribuições a humanidade devem ter sido pensadas em momentos como esses, momentos de grande filosofia ou mesmo de grandes nadas.
É só pra constar, não conto azulejos; leio quadrinhos (sim, isso mesmo! E daí?)
07.03.08 09:15:21, 
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