Quem manda lá em casa sou eu

by oproprio Email

Oba, nesta semana tem poker! A jogatina tem periodicidade mensal e começou como uma brincadeira entre primos. Hoje o rol de participantes aumentou com a inclusão de alguns cunhados, amigos e agregados, num universo de uns quinze marmanjos, que se sentam em torno de uma mesa para jogar, beber, comer e rir muito.
As regras não têm nada de muito sério: novos jogadores sentam-se a qualquer tempo, pode-se sair da mesa, também, sem muita cerimônia, o valor das fichas é irrisório, o tira-gosto, por vezes, é mais importante que o baralho e por aí vai. O que conta mesmo é a diversão e o bom papo. E no último par de anos, minha presença no evento mensal é garantida. Mas nem sempre foi assim.
No início, convencer D. Maria que a jogatina era inocente e meu alvará de soltura deveria ser expedido sem muitas apelações foi esforço hercúleo. Bem verdade que, quando nos casamos, o grupo, as regras, as bebidas e os horários eram outros e favoreciam menos a um ambiente, digamos, santo.
Hoje a primeira quinta do mês virou data FIFA e basta um lembrete de véspera. Isto, claro, se não tivermos compromissos outros que impeçam minha presença.
Parênteses: a data FIFA é uma expressão emprestada do futebol, que tem, em seu calendário, datas nas quais os clubes são obrigados a ceder jogadores para as seleções nacionais, inapelavelmente. A cessão de jogadores fora de datas FIFA é faculdade das agremiações. A analogia ficou perfeita.
Se eu tenho, hoje, uma situação bastante confortável para garantir minha presença, meus companheiros de mesa já não encontram a mesma situação, pois somos os elos fracos em nossas casas. Como disse antes, são todos homens, quase todos comprometidos e, via de regra, ninguém apita nada em seu próprio terreno. Alguns exemplos:

Sinhozinho – diferentemente dos demais, não tem na esposa um entrave – difícil uma mulher que arrota mais alto que o marido objetar dele fazer uma jogatinazinha. Até com filho pequeno, já mostrou que não tem impeditivos caseiros ao poker. Entretanto, é o workaholic da turma e nunca tem agenda para os amigos. Não o vi neste ano.

Dado – o único do grupo que não usa aliança, tinha tudo para ser o mais assíduo. Entretanto, no início do ano mudou seu status no Facebook, admitindo estar “num relacionamento sério”. Nunca mais deu as caras, nem saiu com os amigos.

Seagal – já não mandava nada em casa quando casou, teve seu alvará permanentemente cassado após o nascimento da filha. Ainda não deu as caras neste 2011 e, dizem as más línguas, só poderá voltar às mesas quando a herdeira completar 5 anos.

Cunha – diz que não tem problema de alvará e que a esposa até o incentiva às participações nos jogos, mas, coincidentemente, ela sempre aparece com crise de coluna no dia do poker, impedindo sua participação.

Doc – pau-mandado clássico. Hoje recém-casado, já recebia ordens da primeira-dama, enquanto ainda eram apenas namorados. Detalhe: ordens por DDD, porque ela não residia em Brasília. Sempre nos dias de jogatina, em hora quase marcada, corria com seu celular e trancava-se no banheiro, forjando o silêncio do seu quarto para um “boa noite” à amada.

Ézio – casado há poucos meses, andou desaparecido dos jogos com a justificativa que a construção da casa nova estava demandando muito tempo. Nem bem mudou para a nova residência, a mulher já iniciou uma reforma sem precedentes – e sem necessidade – como forma a manter o marido em casa, dando a ele uma justificativa digna.

Soneca – outro que sofre com uma paternidade recente, mandou avisar, através de mensagem de sua esposa, que só tem retorno ao poker quando o filho estiver dormindo a noite toda. O alento é que, se puxar o pai, o rebento não só dormirá durante a noite, como o dia inteiro.

Dindo – de casamento marcado, marcou uma despedida de solteiro para demonstrar aos amigos quem é que manda na relação. O que a maioria não sabe é que a noiva foi levá-lo ao bar, esperou na porta e levou-o para casa; isto sem contar que recebeu, a cada 10 minutos, uma fotografia de nosso amigo na “farra”, com descrição dos acontecimentos mais relevantes. E, pasmem, o cagoeteiro faz parte do grupo do poker.

Flash – em negociação com a esposa, sobre a data de concepção do primeiro herdeiro, atacou que seria melhor deixar passar a Copa do Mundo de 2014, para que pudessem viajar o país, assistindo aos melhores jogos. Não passou nem perto de vencer a discussão, mas, como prêmio de consolação, ganhou o direito de comprar uma TV nova e assinar um canal para transmissão digital. Não vai nem ao Mané Garrincha.

Walker – chegado em seu amigo homônimo Johnnie, dá vexames homéricos a cada jogatina. Na última delas, quando era o anfitrião, chamou atenção para si de boa parte da vizinhança. A esposa, mais que depressa, encerrou o expediente mais cedo e vetou a entrada de qualquer amigo do poker em sua casa, por tempo indeterminado.

Berna – se houvesse uma confraria das mulheres bravas, a esposa do Berna seria a presidente do clã. Certa vez, numa troca de e-mails convocatórios para uma mesa, um terceiro jogador se indispôs com a Sra. Berna e foi logo advertido por um conhecedor da sua fama: “entre contrariar sua companheira ou a esposa do Berna, fique sempre com a primeira opção”. Eis que o Berna, sábio, conclui: “feliz daquele que tem esta escolha”.

Gui Olivieri
14/06/2011

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