PLEC, PLEC, PLEC
Quando se tem crianças pequenas em casa – as minhas aqui com 2 anos e meio e 6 meses - o final do domingo pode ser comemorado enormemente: significa que sua rotina de trabalho está para começar. Filho pequeno é sinônimo de falta de monotonia, porque não existe padrão com eles. E rotina, às vezes, é ótimo.
Já estava tarde. 23:09h, para ser preciso, marcava o relógio do forno de microondas há pouco, quando passei pela cozinha para deixar uma fralda da Ana no cesto de roupas sujas.
As noites de domingo são sempre assim: coisas demais a fazer e o tempo de sono diminuindo lenta e continuamente, como uma ampulheta que cisma em não descansar. Mas também, confessemos, o tanto de afazeres é diretamente proporcional ao descaso com a casa, que se instala já no meio da tarde da sexta-feira; mal a Alzira vai embora, baixa-se um decreto silencioso no qual é proibido lavar-se qualquer louça, talher, copo ou mamadeira, varrer a casa só se a Elis comer um pacote inteiro de biscoitos na sala (na cozinha, releva-se), os cestos de roupas sujas costumam lotar e ocorrem outros afrouxamentos de regras de arrumação da casa, mais comuns entre adolescentes. Aí, com o fim do fim de semana, é hora colocar a casa em meia ordem, só para não perder o pulso com a secretária no dia seguinte. Pensem numa criatura chegando numa residência totalmente desordenada, e tendo que interpretar uma ordem rígida sobre organização? Melhor não arriscar.
Então estava eu numa lida intensa: guardo um sapato, levo roupas sujas para o local correto, aproveito para já deixar a máquina no ponto para bater umas peças logo cedo, quando eu levantar (claro, porque se ligasse ela ainda agora, teria que subir tudo para o varal ainda hoje – isto nem pensar!), faço um senhor exercício de logística, para conseguir comportar mais um copo sujo na pia lotada – foi-se o último limpo -, organizo a sacola-clube de hoje cedo: protetor solar, bonés, óculos escuros, maiôs e tudo mais, junto notebook, cabos e mouse na mochila, quando, de repente, ouço um PLEC!
- Que raios de barulho é esse?
PLEC!
- Não acredito que a Elis não dormiu, depois da mamadeira que tomou! Ainda mais hoje, que ela reclamou tanto de sono.
PLEC!
Hoje esgotamos a Elis. Acordou relativamente cedo, às 8 e pouco, depois de um sono de quase doze horas direto - só acordou uma única vez, porque perdeu a chupeta. As últimas noites foram para arrebentar, quando ela apareceu com febre alta - de novo - menos de uma semana após vencer uma virose braba. Mas agora, dormiu bem. Por sinal, eu só acordei depois que a Elis chamou. Já a D. Maria e a Ana davam a impressão de nem terem dormido; a caçula, como que por solidariedade à recente mazela da irmã, resolveu acordar um par de dezenas por noite, para terminar de testar o sono da mãe (porque o pai, com sono de pedra, resume as acordadas às vezes que a Elis chora e a mãe cutuca). E esta noite não foi diferente.
Enfim, levantamos, arrumamo-nos e fomos à casa dos avós para nadar - cumprir uma promessa feita ontem à primogênita. Chegando lá, ela simplesmente resolveu não entrar na piscina. Teimosia pura. Puxou a quem?
Aproveitei para testar-me na natação, atividade que voltarei a praticar a partir da próxima terça-feira, após mais de 4 anos de sedentarismo (um parêntese grande: o sedentarismo é parcial, uma vez que jogava futebol uma ou duas vezes por semana, desde sempre. Acontece que há quase 11 meses, mais precisamente em 9 de janeiro, perdi os 148 ligamentos do tornozelo direito numa dividida infeliz com o goleiro adversário. Desde então fiz tratamentos com 3 profissionais de saúde diferentes e, o máximo que consegui, foi uma liberação recente para voltar a nadar).
Pulei na piscina - distante de ser uma semi-olímpica - munido com meus antigos óculos Speedo, e parti para o teste: fui de crawl, voltei de crawl, fui de crawl, voltei de peito, pausa, porque ninguém é de ferro, fui de borboleta e não voltei. Em 93 segundos encerrei meu teste, absolutamente esbaforido. E com o tornozelo doendo.
PLEC!
A sim, estava falando do cansaço da Elis. Mesmo sem nadar, ela tomou uma bela canseira e dormiu pouco após o almoço. Durante o fim de tarde e começo de noite, ela já havia reclamado de sono. Então, não era possível que aquele barulho fosse ela.
PLEC!
- Tá parecendo estouro de bolinhas, no plástico bolha...
PLEC!
- Não acredito que a D. Maria, enquanto amamenta a pequena, resolveu brincar. Será que ela não percebe o quanto está tarde e as meninas - e nós - precisamos dormir?
PLEC!
- Vou lá ver.
Nada no quarto da Elis, que dorme pesadamente.
Entro no quarto de televisão e encontro a seguinte cena: a mãe, roxa de segurar o riso, segurando a bebezona ao peito; esta, mamando de olhos arregalados e sorridentes, enroscava os dedinhos no sutiã da mãe, puxava-os o quanto conseguia e soltava o elástico - PLEC!
Dei uma sonora gargalhada e voltei à minha labuta, feliz da vida.
Gui Olivieri
27/11/2006
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10.05.11 21:43:01, 