Eu quero a minha banheira
Sempre tive atração pelos carros grandes, tipo sedan, mundialmente conhecidos como banheironas. Há uns que gostam de utilitários, outros dariam tudo por esportivos italianos, mas eu gosto do espaço e conforto de um sedanzão.
Desde meu segundo veículo, quando o quesito de escolha pode enfocar além do mais-barato, que tenho direcionado os modelos para a característica preferida: Marea, Bora e, recentemente, o Azera perfazem o estilo que muito me agrada, apesar da alcunha que carrego de dirigir carro de tiozinho. Nem ligo.
Dia desses, parei num sinal atrás de um clássico Landau, trincando de bem conservado e, juro, cheguei a ver uma gota de chuva, em forma de lágrima, correr do canto do farolete do meu carro, quando o avistei. Dei uma buzinada cordial que me soou um “vovô!”.
Tudo começou assim: janeiro de 1988, eu e meus irmãos, de férias, passamos uns dias na casa dos avós, em Patos de Minas.
Antes da viagem, entretanto, estive emocionalmente envolvido com uma troca de carro lá de casa. Não me lembro qual era o carro antigo que usávamos – chuto ter sido um Passat dourado, comprado à época que minha mãe tirou carteira, que foi roubado no estacionamento da Escola de Música. Certo é que meu pai estava, há dias, procurando um novo carro para a família. No dia em que saímos de casa para o interior mineiro, a bola da vez era uma Belina Del Rey novinha, cor de vinho, que conciliou alguns opcionais pretendidos e cabia no orçamento estimado.
Mas, convenhamos, Belina Del Rey não era uma alternativa boa nem recém saída de fábrica, quando de seu lançamento. Lembro-me de viajar frustrado com a possibilidade iminente.
Voltamos de Patos de ônibus, no fim da tarde, e chegamos na rodoviária já tarde da noite, onde fomos recebidos pelos meus pais. Conversamos rapidamente, atualizamos informações mais importantes e meu pai, com um sorrisinho malandro, disse que ia buscar o carro para colocarmos as malas.
Lembro-me que minha mãe, cúmplice, não deu dica alguma sobre qual era nosso novo carro, enquanto meu pai sumia no breu do estacionamento. Apesar da expectativa, não estava muito entusiasmado, porque achava que veria a tal Belina. Eis que aponta de longe, imponente como só ele, o Opala Comodoro 86, 4 portas, com rodas do Diplomata, dourado como era o Passat, mas incomparavelmente mais estiloso. Fiquei com taquicardia.
Passei meses em lua-de-mel com o carro novo e, a partir dali, elegi o Opala como o “meu” carro.
Poucos anos depois, em 1992, a GM lança o último modelo de Opala já fabricado, uma obra-prima: o Diplomata 4.1, 6 cilindros, com o acabamento externo todo repaginado e várias melhorias mecânicas em relação aos seus antecessores. Fiquei instantaneamente apaixonado.
Desde então, a montadora substituiu-o pelo Monza, o Omega, a concorrência à época aumentou com o novo Santana, Versailles e Tempra, veio a abertura de mercado com modelos japoneses, alemães, franceses ou coreanos, esportivos, compactos ou super-sedans, mas eu continuo fechado no Opalão 92.
Já até anunciei lá em casa: no dia em que eu ganhar na loteria – para tanto, preciso começar a jogar – a minha primeira ação será comprar o tal Opala. Milionário, mas eu quero mesmo é realizar esse sonho de infância. Ou isto ou tomo coragem, encaro minha posição de chefe do lar e provedor da casa e assumo os riscos de bancar um hobby de vinte e tantos mil reais, a despeito da opinião contrária de minha esposa.
Err... alguém sabe quando corre o próximo sorteio da Mega-Sena?
Gui Olivieri
18/04/2011
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19.04.11 08:58:15, 