Eu protesto, chefia!
De repente, corta o vento gelado (do ar condicionado) desta manhã de terça-feira um som ruidoso. É uma corneta, que dá o tom para uma série de outros apetrechos barulhentos advindos da faculdade vizinha. Apitos, pandeiros, batuques e gritos de guerra aumentam o grito original da corneta.
Olho pela janela e vejo um grupo de estudantes sair pelo portão lateral da instituição de ensino e lembro-me dos cara-pintadas durante o governo Collor - movimento que neglicenciei, quando era estudante da unidade UDF do Objetivo. Recordo-me bem que, num dia, alguns colegas se empetecaram para protestar na esplanada, encerrando as aulas naquele turno, e quase morri de achar bom porque estava prestes a zerar o Alex Kidd e pude ir mais cedo para casa para jogar. Não espalhem isso. Sério. Morro de vergonha de lembrar que não fiz parte de um movimento alegre e saudável porque era um apolitizado-nerd do marca maior.
Voltando à faculdade, os estudantes ruidosos não passam de uns 20, 30 no máximo. Isso me remete a outra época, quando eu, já universitário engajado, sempre fiz parte dos movimentos estudantis a e acadêmicos, e pelejava horrores para mobilizar os apolitizados-nerds que me cercavam, fosse para uma melhora departamental, os jogos universitários ou um churrasco de confraternização (em ordem crescente de prioridade, frise-se). Fiquei imaginando o sofrimento dos organizadores daquela passeata ali embaixo em angariar simpatizantes pela causa.
Falando nisso, qual seria a causa abraçada pelo grupo? Seria acadêmica? Política? Estão, em sua maioria, vestidos de roupas vermelhas; então, a coisa foi premeditada, o que aumenta minha admiração pelo protesto e minha consternação pela baixa adesão. Descubro-me morrendo de curiosidade para saber o motivo da manifestação...
Nisso eles saem da insituição e descem, rumando a avenida W4 e o prédio que estou. A descida não dura mais que um minuto, que acompanho atentamente. Estão sorridentes. Não interrompem o trânsito - provavelmente por não terem estrutura numérica para tal - e aguardam paciente e ruidosamente para atravessarem a rua. Fico em pé para observar melhor, e porque eles já estão no pé do prédio e não os vejo de minha cadeira. Eles somem embaixo da marquise e eu desejo estar com eles. Sento-me e começo a escrever essas linhas.
Agora, enquanto encerro este texto, a maioria dos instrumentos já calou. Escuto apenas um pandeiro mal-tocado, num pagode de última categoria - começado 30 segundos depois de sumirem na marquise - que este grupo de "atôas" toca no boteco ao lado, embebedando-se de cerveja às 10h da manhã, matando aula. Vagabundos!
07.03.08 09:03:17, 
Comentários recentes