E-19

by oproprio Email

Vida de marido de bailarina que pertence a grupo de dança amador-mas-querendo-ser-semi-profissional é fogo. Além de suportar as ausências de ensaios no terceiro turno e em fins de semana, a gente ainda passa por situações potencialmente embaraçosas. Esta aconteceu há um par de anos.

Para dar visibilidade ao trabalho da companhia de dança recém re-batizada, a coordenadora do grupo resolveu inscrever uma coreografia no Jogo de Cena – espetáculo local de esquetes – que foi prontamente aceita.
No dia marcado, lá vou eu sozinho para o teatro, porque D. Maria havia chegado mais cedo e, certamente, já estava se aquecendo àquela hora para entrar no palco. Havia comprado ingresso pela manhã, poltrona E-16, e disparei para a entrada correndo, pois estava atrasado.
Sabedor da fama dos dois apresentadores – chamá-los-ei Jajá e Tito – respirei fundo e entrei em passos rápidos, procurando a poltrona de meu ingresso. Antes de atingir a fileira –M- começou a gozação:
- Esperem um pouco, porque acaba de chegar a caravana de Brazlândia, que atrasou por conta do trânsito.
- Caravana com apenas um integrante?
- É porque a ficante dele deu o furo no rapaz, coitado.
Os dois se revezavam na tiração de sarro comigo, enquanto eu descia as escadas, procurando meu lugar. Quando percebi que ele já estava tomado, acomodei-me na primeira poltrona livre na 5ª fileira, a E-19.
Não sei o que estava acontecendo antes de minha chegada, mas era óbvio que eu era a piada da vez.
Do meu lado direito, três poltronas vazias; no esquerdo, tudo ocupado. Imediatamente a meu lado, uma garota de cabelo rosa choque, eu percebi em seguida.
- Ô, E-19, não fique triste não. Ela está atrasada, mas ainda vai chegar.
- O E-19 vai passar o espetáculo inteiro vigiando o celular, para ver se ela, ao menos, manda uma mensagem.
- Ligue para ela! Sacanagem ela te fazer vir e dar um bolo desses.
Eu levei as brincadeiras na esportiva, enquanto Jajá e Tito descascavam seu repertório sobre minha suposta solidão naquela noite de quarta.
Depois de uns quase 10 minutos sendo o centro da atenção do espetáculo, eis que um casal entra no teatro, mais atrasados que eu.
- Acaba de chegar a caravana da Cidade Ocidental – anuncia um deles, enquanto o outro desce do palco para “ajudar” a instalar os recém-chegados em suas poltronas e fazê-los, momentaneamente, os alvos das piadas.
Caprichosamente, o casal tem as poltronas E-21 e E-22 em seus ingressos e sentam-se à minha direita, deixando uma poltrona vazia entre nós.
- Ai, ai, ai. E não é que o E-19 está mesmo esperando companhia?
Facilmente, mais 5 minutos de gozação pela configuração dos assentos induzir que havia um espectador por chegar, que se sentaria a meu lado.
Devo dizer que as piadas foram ótimas e, não fosse eu o alvo delas, teria dado boas gargalhadas a mais.
- Antes de chamar nossa primeira atração, queria dizer que você, E-19, ainda deu um azar danado. Sentado ao lado de uma criatura com cabelo rosa choque e sendo careca de reluzir, é muito fácil te achar na plateia. Então você se torna um alvo ainda mais fácil.
Sorte a minha.
Assim, fazendo a diversão de todo o público durante um bom tempo, assisti à apresentação daquela nova banda de rock, que tocaria duas músicas.
No meio da segunda música, eis que a plateia fica alvoroçada. Olho para trás e vejo que um rapaz adentrou o teatro e desce vagarosamente, procurando seu lugar.
“Ele não vai se sentar ao meu lado, ele não vai se sentar ao meu lado” – comecei num quase-mantra silencioso. Em vão. O sujeito aponta na fileira E, passa pelo casal da Cidade Ocidental e acomoda-se à minha direita.
O público literalmente urrou. Durante uns 30 segundos, os apupos, palmas e assovios abafaram o som dos instrumentos e os músicos, certamente, não entenderam nada. Dei um tapa no joelho do meu vizinho e só consegui soltar um “cê tá ferrado”.
- Então não era “ela”, mas “ele”, hein, E-19?
- Está feliz que sua companhia chegou, E-19?
Jájá e Tito ignoraram a presença da banda e passaram outros vários minutos destilando suas piadas à minha suposta companhia.
Minha sorte é que, com a chegada do E-20, o foco passou a ser ele. Antes da esquete seguinte, que viria a ser D. Maria e companhia, chamaram algumas pessoas da plateia para uma atividade no palco. Meu “companheiro” e a garota-de-cabelo-rosa-choque fizeram um parzinho, no qual ele deveria seduzi-la. Menos mal que me livrei desta.
Terminada a apresentação da coreografia de minha esposa, corri para o palco, num rasgo incomum de determinação, e tasquei um beijão na minha bailarina, para delírio do público presente. Em meio ao frenesi que se formou, quase ninguém notou que o E-20 foi embora, com os olhos cheios d’água.

Gui Olivieri
16/08/2011

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