Duplo sentido
Atualmente, apesar de renegar minha formação, não dá para esconder uma veiazinha “geek” em minha personalidade: adoro eletrônicos, pesquiso novidades tecnológicas e sempre tive opinião e tomei partido nos grandes embates da área – Windows ou Linux? Oracle ou SQL Server? Jobs ou Gates? Facebook ou Orkut? E por aí vai.
As meninas lá em casa – filhas de um desenvolvedor deserdado e outra que quer deserdar – não podiam ser diferentes e têm, no computador, a sua diversão preferida. Há casas em que a programação infantil da televisão dita horários; outros lares vêem, no videogame, o grande centro de entretenimento; DVDs são prioridade em alguns. Lá em casa temos os computadores.
Depois da reforma de fim de ano, nosso quarto de TV continua a ser chamado assim porque somos teimosos. A verdade é que ele virou o quarto da rede: modem, roteador e impressora dividem a bancada com 3 notebooks, que são disputados a tapa – o meu Dell, o MacBook Pro da Dona Maria e o Dell velho, das meninas, munido de um anti-vírus e um browser, apenas. A TV, imponentemente pendurada na parede, é quase um quadro sem graça e sem uso.
Qualquer intervalinho entre almoço e dever de casa, homework e saída para o inglês, banho e jantar é motivo para as crianças sentarem-se à frente do computador para uma jogatina. Os sites preferidos variam de tempos em tempos, mas a diversão é garantida.
Some-se a isto a precocidade na alfabetização da Elis e tenho um problema sério, pois ainda não fiz nada para gerenciar o conteúdo de suas navegações, apesar de ela ter descoberto o Google há bastante tempo.
Dia desses, num lanche pós-missa, minha primogênita e a coleguinha inseparável estavam discutindo sobre ônibus espaciais (façam-me a enorme gentileza de não perguntarem como a conversa delas recaiu sobre este tema – o que as escolas estão fazendo com a inocência de minha pequena?). Eis que elas perguntaram-me, como era a aparência de um ônibus espacial. Esforcei-me em apresentar as características que descreveriam o veículo, sem a certeza de estar sendo bem compreendido.
Pois não é que no dia seguinte, um domingo, levanto cedo e pego a Elis, já acordada, sentada à frente do computador, com o Google aberto e navegando entre imagens de ônibus espaciais? “Olhe, papai, eles não se parecem com foguetes, mas com aviões”, discordando de minha descrição de véspera. “Preciso de uma ferramenta de gerenciamento de conteúdo urgentemente”, pensei alto.
Pois naquele mesmo dia, à tarde, fui pego pela falta de iniciativa em instalar a ferramenta que limitaria o que minha filha pode acessar. Estou me instalando na sala para assistir o jogo das 4 horas na TV quando sou convocado pela Elis, que estava navegando. Ela só aponta para o título da notícia em destaque na tela, tirada de um portal qualquer, e fulmina: “o que é isto?”. Leio, incrédulo, a chamada “Entenda o conflito em território Sírio”.
Respiro fundo, busco rapidamente em minha memória as informações que preciso e começo uma quase-homilia: remonto Adão e Eva, o pecado original, a liberdade do homem em escolher seu caminho, o embate de bem e mal, a vontade de Deus, o maniqueísmo, o fundamentalismo, o horror de uma guerra, o erro de um ser humano tirar a vida de outro, seja lá qual for o motivo, as características de uma ditadura, os interesses de outros países em fomentar o conflito, e por aí vai. Apesar da minha filha não ter completado os 7 anos, tenho a filosofia de dar explicações completas, num vocabulário mais próximo ao dela, sem a preocupação se ela vai digerir tudo aquilo. É minha maneira de valorizá-la e, de tudo, ela capta um bom tanto de informação.
Uns dez, quinze minutos depois, ela muito atenta a tudo o que digo, mas com cara de confusa, me interrompe:
- Tá, papai, acho que entendi essa confusão toda, mas não era isso que eu queria saber. Um território Sírio é um chão coberto de pão Sírio?
Sorri para ela, quase constrangido, e desfiz o mal entendido, sugerindo que ela fosse brincar de outra coisa.
Fui desligar o notebook para poder voltar ao jogo da TV, que já ia quente. Nisto vi a notícia seguinte, naquele mesmo portal, e dei uma boa risada, porque o duplo sentido da notícia da Síria era peixe pequeno em vista à chamada seguinte: “Brasileiras batem tchecas no vôlei de praia”.
Gui Olivieri
25/04/2011
68 comments
bjos!
Minha sobrinha de 5 anos, mora com meus pais (uma irmã caçula, pois de Tia passo longe...) adora jogar no seu computador tb...a TV fica de costas, não há o minímo de interesse!!!
Hoje, convivendo com crianças da pré-escola até o nono ano do ensino fundamental, estou mesmo é horrorizada e preocupada com essa juventuda com uma tecnologia que avança a cada dia e que "necessita" da presença de seus pais para desenvolverem de modo correto e concreto (orientação) o que acontece diante de seus olhos!!!
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26.04.11 23:18:00, 