Como é o nome daqueles livros com imagens em 3D?
Dia desses, cheguei em casa, vindo da natação, e encontrei minha primogênita - 3 anos e meio - dando um show daqueles. De dentro do carro, no estacionamento em frente ao bloco, já escutava seus gritos. Subi os degraus de dois lances de escadas aos pulos, já com o sangue quente. A cena que se seguia era a Elis rolando no chão do banheiro enperneando-se, aos berros: "Eu não quero tomar banho! Eu não quero tomar banho!". Minha sogra, uma santa, desdobrava-se em argumentos para demovê-la do faniquito.
Quem me conhece um tiquinho assim sabe que minha (in)tolerância a birra só se equipara com a que tenho com vascaínos.
Entretanto, julguei que minha intervenção tiraria a autoridade da avó e, apesar do meu limite para esse tipo de escândalo ser nulo, engoli seco e fui tomar um banho, com a casa ainda ecoando em gritos.
Quando saí, encontrei-a linda, cheirosa e saltitante. Fui exercer meu papel de pai: "Filha, venha aqui, por favor", no que ela veio toda sorridente. Sentei-a na cama, agachei à sua frente, para ficarmos na mesma altura, e comecei a rezar a missa.
- Filha, por que você estava chorando?
Conhecem aquele olhar do Gato de Botas, da série Shrek? Foi a resposta.
Segui em tom firme, mas com a voz doce: "você não pode fazer isso", "você, normalmente, é tão comportada", "a vovó vem aqui para te fazer companhia" soltei, não necessariamente nessa ordem - e ela me encarando. Tá funcionando. "O papai fica aborrecido", "fazer birra é feio" e ela com olhos nos olhos. Continuei com minhas frases de efeito para a psicologia infantil e, para minha surpresa, a Elis sem desviar a atenção, arregalando os olhos de vez em quando, sem piscar, a um palmo de distância de mim.
Acho que até espichei meu sermão, dada a receptividade dela, sustentando firme o olho-no-olho. Quando terminei, estava convencido que tinha atingido meu objetivo, porque nunca a tinha visto acompanhar tão atentamente meus discursos. "Não faça mais isso, tá bom?" Ela me encarou por mais uns dois segundos, em silêncio, deu uma esbugalhada nos olhos típica de quem está desfocando, e soltou essa, apontando para o centro das minhas sobrancelhas:
- Papai, você tem três olhos...
16 comments
Adorei o site! :)
E adoro ler suas histórias!! Você é um excelente escritor!!!
Um bjo pra vc, pra Si e pras meninas!
sou fã dos seus textos ... chego a chorar de tanto dar risada.
Beijos,
Tia Le
Muito boa a atuação paternal.
Muito bem me fez ler teu texto.
Resumindo,
Continue!
Abraço,
Nando.
PS: Bom também é deduzir que és Flamenguista, certo?!
ha! ha! ha!
Adoro seus textos, esse dos três olhos em especial.
Beijos
E sua psicologia infantil estava indo muito bem!
Forte abraço.
Estamos esperando!!!
Bjos
Van
Estamos esperando!!!
Bjos
Van
07.03.08 09:21:12, 
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