Canalha de araque

by oproprio Email

Entrar em casa só de meias não foi suficiente para disfarçar o barulho.
- A-DAL-BER-TO!
- Sim, benzinho, ainda acordada?
- Isso são horas, Adalberto?
- Fale baixo, amorzinho, senão você acorda as crianças e...
- Seria ótimo elas acordarem, Adalberto, assim elas se lembram da cara do pai.
- Sabe como é Dilzinha, muito trabalho no escritório.
- Adalberto, tá difícil de acreditar em você. É o terceiro dia, só nesta semana, que você faz serão.
- Fim de mês é assim, meu docinho, você sabe.
- Não senhor, seu Adalberto. Não há motivos para tantas horas extras juntas. Olhe para mim; olhos nos olhos. Sem desviar, Adalberto. Diga para mim: o que está acontecendo?
- Nada...
- Ai, meu Deus. Eu conheço esse olhar, Adalberto. Eu não acredito...
- Que foi?
- De novo não, Adalberto, não vou suportar passar por tudo de novo.
- De novo o que, mulher de Deus?
- Não minta para mim, Adalberto!
- Mas querida...
- Eu não posso acreditar - cara de choro - mamãe bem que me avisou para não te dar outra chance.
- Eu... fraquejei. Perdoe-me.
- Perdoar, seu salafrário? Você se esqueceu da humilhação que você me proporcionou da outra vez, seu cachorro? Passei dois meses sem botar a cara pra fora da janela porque não conseguia encarar os vizinhos.
- Não exagere, chuchuzinho.
- Aposto que isso é obra da Margarete, aquela sirigaita do recursos humanos. Eu bem reparava nas investidas delas pro seu lado nas confraternizações do escritório.
- De onde você tirou isso, Dilzinha? Não comprometa a pobre moça, ela é casada.
- E eu sou o que, seu pamonha? É bom que o marido daquela lambisgóia saiba que sua esposa é uma fraca. Assim como você, seu pastel! Todo mundo fala que é roubada, que é só dor de cabeça, mas sempre tem um bocó pra cair naquela conversinha mole.
- Dilzinha, se eu fiz o que fiz, foi pensando no nosso bem. Uma diversificada, de vez em quando, pode trazer a estabilidade pra casa.
- Eu me garanto, Adalberto. Vá diversificar na casa do...
- Pare, biluquinha, tente se acalmar. Foram só uns beijinhos, nada mais.
- Beijinhos? Beijinhos em quem, Adalberto? Do que você está falando?
- Ué? Eu e a Margarete, você sabe...

- Dilza, pare de me torturar, diga alguma coisa.
- Achei que você - Dilza solta uma sonora gargalhada - tivesse voltado pra Amway.
- Então tô perdoado?
- Claro que não, hahaha. Some daqui. HAHAHAHA. Canalha. HAHAHAHAHAHAHAHA!

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