Ai, CARAI...
Eu acho sonho uma coisa muito louca. Como explicar esse fenômeno que, ao mesmo tempo que te coloca com a camisa 9 do Mengão, num Maracanã lotado, resolvendo a partida do campeonato, te põe pelado num baile de formatura?
Sei que tem gente que estuda isso, profissionais que conseguem traçar alguma característica sua a partir de suas experiências vividas durante o sono. Mas eu não tento nem quero entender.
E recém-nascidos, então? Tá que, desde algum momento, ainda no ventre da mãe, eles já guardam informações e sensações que a genitora experimenta – acredito piamente nisto. Mas o que será que um neném, de alguns dias de vida, sonha? Porque sonha, sim senhor. Eu vi isso nas minhas bebezinhas.
Particularmente, passo por fases de sonhar muito – ou, ao menos, ter registros de muitos sonhos – e períodos de absoluta falta de viagens noturnas. Atualmente, estou num período de seca. Apesar disso, alguns temas são recorrentes, a saber:
1) Pelo menos uma vez por semana, me vejo em gramados, de chuteiras, chutando longe minha frustração por ser um aleijado para o futebol. Nesses dois últimos anos - desde minha aposentadoria forçada - é freqüente eu voltar a campo, no mesmo gramado sintético em que deixei meu tornozelo, com os mesmos companheiros de pelada, e bater uma bolinha. Às vezes, sou o craque do time; as vezes, em contrapartida, cometo erros bisonhos, mais fiel ao meu desempenho pré-contusão;
2) Esse sonho já foi mais assíduo há alguns anos, mas não é incomum eu sonhar que estou fumando. Afora uma experiência frustrada na adolescência (que, por sinal, merece um texto só para ela), que não durou nem um maço, nunca fumei. Nem legalizado nem extra-oficiais. Mas, vira e mexe, estou posando com um cigarro entre os dedos; e vale qualquer ambiente. Vai saber o que isso representa;
3) Outro, que já foi habitué nas minhas noites, era a dificuldade em atravessar a rua: eu sempre tinha um espação para passar, até que chegasse algum carro, tentava correr pelo asfalto, mas minhas pernas pesavam horrores e nunca conseguia alcançar a outra margem. Dois fatos curiosos sobre esses sonhos eram (a) eu sempre acordava antes que carro me atingisse, e (b) era sempre no mesmo lugar. Para ser bastante preciso, sempre no eixinho L norte, sentido rodoviária, talvez na altura da 206N. Só não me perguntem porque eu precisava atravessar a rua nesse local, mas era lá que eu tentava quando sonhava. E era lá que eu empacava. Diacho de sonho estranho;
4) O último, mais constrangedor, era aparecer de cueca em locais públicos. Que mania bizarra era essa de esquecer de por roupas antes de sair de casa? Pior é que não havia uma alma caridosa para me alertar antes que eu chegasse no meu destino. Odiava esse sonho, mas é outro que não me aparece há muito tempo.
Até ontem - eu já pensava em escrever sobre sonhos - eu teria parado por aqui, tentando fazer uma piadinha sobre meus sonhos de cuecas e despedindo-me. Mas minhas filhas, sempre elas, vivem oferecendo experiências incríveis, que preciso dividir com vocês. Vamos à segunda parte, então.
Plena terça-feira, 5:40 da manhã, faltando vinte sagrados minutos para meu despertador tocar, minha filha aparece ao pé da cama pedindo um teco do meu travesseiro.
- Posso dormir aqui, papai?
- Filhinha, por que você não dorme na sua própria cama?
- Sabe o que é papai, tem um monte de cachorros, brincando de circo sentados à minha cama, que ficam me dando sustos.
Pára tudo. Não são nem 6 da manhã, não tenho forças nem para rir, quanto mais fazer alguma idéia do que responder nessa situação. Preciso de ajuda.
- Por gentileza, é da Central de Atendimentos para Respostas Antipáticas Infantis?
- Sim, senhor, é da CARAI, atendente Geni falando. Em que posso estar ajudando? – como toda boa operadora de telefone, a Geni abusa de gerúndios. Comecei bem.
- Minha filha disse que tem um punhado de cachorros na cama dela, brincando de circ...
- Um instantinho, senhor, preciso de uma informação por vez. O senhor disse cachorros, certo?
- Isso mesmo.
- Encontrei a categoria “cães”. Serve?
- Acredito que sim.
- Qual raça?
- Não faço idéia, ela não disse.
- Senhor, se o senhor não me informar a raça dos cães, estarei lançando “indeterminado”, mas isso pode limitar as pesquisas subseqüentes. O senhor me autoriza não especificar a raça?
- Claro, claro. Mas vá rápido porque ela está me olhando com cara de pidona e pode começar a gritar a qualquer momento.
- Senhor, preciso deixar claro que, caso a consulta não apresente resultado satisfatório por causa da não especificação da raça dos cães, a cobrança pela ligação estará sendo efetuada assim mesmo.
- Tá bom, tá bom, mas ande logo, por favor.
- Quantos cachorros?
- Três – menti para não escutar aquela ladainha de novo.
- Ok, 3 cães de raça indeterminada. O senhor está com sorte porque, para essa quantidade de animais, não há a necessidade de estar sendo especificado do sexo. O que mais?
- Eles brincavam de circo.
- Complicada essa, hein? Deixe-me ver o que posso encontrar... – sons de teclas sendo pressionadas – Ahá! “Brincadeiras de fim de semana – clube, circo, cinema e zoológico”. Exatamente o que o senhor precisa.
- Ótimo, ótimo. Bom eles brincavam sentados na cama e estavam assus...
- O senhor disse “sentados”?
- Isso mesmo
- Lamento senhor, mas essas brincadeiras, segundo meu sistema, só podem ser executadas por cães sobre as patas, rolando ou fingindo de mortos.
- Não tem nada sobre cachorros sentados?
- Só se estivessem brincado de andoleta, passar o anel, adedonha ou chicotinho queimado.
- Mas preciso dar uma resposta a ela.
- Lamento, senhor, mas a não informação da raça pode ter sido determinante. Quem sabe poodles não possam brincar sentados? Eles são os preferidos das crianças.
- Não, não eram poodles. Obrigado.
- A CARAI agradece sua ligação e desej...
- Deita aqui, filha.
07.03.08 09:10:53, 
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