A caçada
É tão raro eu acordar de madrugada por algum motivo, que até me diverti nesta última noite.
- ZummmmmmmmmmmmmmmMMM. Tem um pernilongo na minha orelha esquerda, alerta minha consciência, tentando me tirar do sono. Tapa nela e volto a dormir.
- ZummmmmmmmMMMMMmmmmmmmmMMMMMMMmmmmMM. (O pernilongo está me rodeando e acaba por pousar no meu cotovelo). Apesar de não abrir os olhos, começo a despertar do sono. Mas dou um safanão no ar e tento pegar no sono de novo.
- ZuuuuMMM! – desta vez ele veio direto, sem voltas, e pára em minha bochecha. Já desperto, lasco um tapão no meu rosto e, óbvio, não passo nem perto de matar o bicho, que sai peralta pelo quarto.
Num rasgo de compaixão às minhas meninas, pulo da cama, fecho a porta do quarto e o vitrô do banheiro, isolando o maldito em meus domínios. – Agora você não me escapa – cheguei a falar auto com os dentes cerrados. Conferi o relógio, que marcava 3:05h.
Disse compaixão das minhas meninas porque, desde que casei, nunca mais fui picado por pernilongos: nunca vi uma criatura para atrair insetos – e ter tantas alergias às suas picadas – como minha esposa. E as filhas puxaram à mãe. Elas acabam por ser meus repelentes, porque estou a salvo próximo às três.
Este bicho devia estar gripado, com seu olfato prejudicado, para estar me rondando, apesar da D. Maria estar a meu lado. Eu mesmo, se pernilongo, preferiria muito mais a pele cuidada e sedosa da minha companheira à minha. Mosquito besta.
Volto do banheiro da suíte e acendo suas luzes, de forma a deixar o quarto semi-iluminado e na esperança de vencer minha batalha sem acordar a Si. Assim que a minha vista se acostuma com a nova iluminação, vejo um bicho pousado no armário, do outro lado do quarto, outro em meu travesseiro, roubando meu lugar e meu sono, e ainda escuto um terceiro. Uau, desafio triplo!
Tiro a camisa do pijama, que passa a ser minha arma, e parto para guerra. Chego perto dos dois alvos fixos anteriores e constato que não há nada aqui, o que me faz crer que o sono ainda prejudica meu bom raciocínio. Mas o zumbido no meio da madrugada me faz ter a certeza que preciso achar ao menos um.
Depois de duas tentativas frustradas, na porta do armário e no teto, acerto o primeiro pernilongo ao lado da cortina, deixando uma plastaca de sangue esmagado na parede. O cretino já tinha picado alguém hoje. Estranhamente, todas as três dormem profundamente, mesmo com a minha atividade intensa.
Como o zumbido não cessou, tive a certeza de haver outro mosquito na área e continuei minha saga, esta bem rápida. Tentei acertá-lo no ar e ele acabou por pousar no armário, exatamente onde havia observado um ponto preto quando saí do banheiro. Enrolo a camisa e VAPT! Não acertei-o em cheio, mas ele caiu cambaleante no meu braço; joguei-o ao ar e espatifei o pernilongo tão logo bateu no piso. Pisei com tanta força e raiva que ele fundiu com a cerâmica, dando nova coloração ao chão do quarto.
Cheguei a acreditar que minha tarefa estava encerrada, por não escutar nada e não ter indícios de um terceiro inseto no quarto por vários minutos. Até que ele deu um rasante em minha careca, quase encostando em minha testa, como a me desafiar.
Fiquei estarrecido da D. Maria não acordar, porque os minutos seguintes foram de uma luta intensa. Percebi, a certa altura, que só um de nós poderia sair vivo e cheguei a temer não vencer a batalha depois de dois diretos no rosto e uma canelada na quina da cama.
Por fim, ele, certamente cansado, pousa no teto e acerto-o com minha camisa, num arremesso seco e certeiro. A mancha de sangue no meu pijama está guardada quase como um troféu. Três baixas e as três ainda dormindo.
Aproveitei que estava bem acordado, com adrenalina a mil e suando em bicas, fiz uma geral por outros pernilongos no quarto das meninas, mas não achei nada. Liguei na tomada o protector – que não anda protegendo absolutamente nada, mas dá um senhor conforto de consciência – e voltei para a cama.
3:35h e eu estou satisfeito com o saldo da madrugada: livrei as meninas do desconforto com os sonos preservados. Sou um herói, pensei em um arroubo de falta de modéstia e de bom-senso.
Na hora de me cobrir, em um movimento infeliz, dou uma topada nas costas da minha mulher e deixo-a descoberta. Lá se foi meu heroísmo. Ela ficou uma arara comigo, por atrapalhar seu sono precioso logo hoje, que precisa levantar mais cedo para uma reunião no trabalho, e convidou-me para terminar a noite no sofá da sala. Ainda tentei argumentar alguma coisa, mas minha situação só piorou.
Agora estou aqui no sofá, quase 4 e meia da manhã, enfezado e sem sono. É o fim da picada!
Gui Olivieri
17/05/2011
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17.05.11 22:37:03, 