Por quê?
O Ricardo Semler teoriza que, em qualquer circunstância, nenhuma atividade supérflua ou infundada resiste a 3 porquês; minha primogênita é, então, uma exímia testadora dessa tese. Nunca, mas nunca mesmo, ela pára antes da oitava indagação.
E isso começou cedo. Lembro-me de uma oportunidade que, quando ela tinha pouco mais de dois anos, cheguei a contabilizar uma sessão infindável de porquês: foram 14 em um minuto. Com cronômetro e tudo. Dá quase uma questão a cada 4 segundos!
Hoje, que ela tem 4 anos recém completos, ainda a acho precoce em tantas dúvidas e tantos questionamentos. Numa música – ótima, por sinal - a Paula Toller cita, em versos deliciosos, alguns exemplos das centenas de perguntas com as quais seu filho a bombardeara. O detalhe, que me estarrece e me põe desesperado, é que a canção chama-se "Oito Anos". Será que piora daqui pra lá? Tenho certeza que sim. E as perguntas devem ficar cada vez mais difíceis de responder.
Fazendo um passatempo, li uma curiosidade que transcrevo: "em um dia normal, uma criança de quatro anos de idade faz 437 perguntas". Pergunto eu:
- De onde eles tiraram esse número?
- Quem foram os entrevistados?
- Como foram contabilizadas as perguntas?
De qualquer modo, minha pequena está bem acima dessa média. Sem dúvida.
Entretanto, dia desses, não foi o excesso de perguntas que me entortou. Depois de uma bateria enorme de questões, onde tive que explicar a funcionalidade de todos os objetos que estavam à vista, ela parou, me encarou em silêncio por dois segundos, entortou ligeiramente a cabeça para o lado, franziu a testa e fuzilou:
- E você, papai, serve pra quê?
Comecei a fazer terapia.
Gui Olivieri
08/08/2008
Como é o nome daqueles livros com imagens em 3D?
Dia desses, cheguei em casa, vindo da natação, e encontrei minha primogênita - 3 anos e meio - dando um show daqueles. De dentro do carro, no estacionamento em frente ao bloco, já escutava seus gritos. Subi os degraus de dois lances de escadas aos pulos, já com o sangue quente. A cena que se seguia era a Elis rolando no chão do banheiro enperneando-se, aos berros: "Eu não quero tomar banho! Eu não quero tomar banho!". Minha sogra, uma santa, desdobrava-se em argumentos para demovê-la do faniquito.
Quem me conhece um tiquinho assim sabe que minha (in)tolerância a birra só se equipara com a que tenho com vascaínos.
Entretanto, julguei que minha intervenção tiraria a autoridade da avó e, apesar do meu limite para esse tipo de escândalo ser nulo, engoli seco e fui tomar um banho, com a casa ainda ecoando em gritos.
Quando saí, encontrei-a linda, cheirosa e saltitante. Fui exercer meu papel de pai: "Filha, venha aqui, por favor", no que ela veio toda sorridente. Sentei-a na cama, agachei à sua frente, para ficarmos na mesma altura, e comecei a rezar a missa.
- Filha, por que você estava chorando?
Conhecem aquele olhar do Gato de Botas, da série Shrek? Foi a resposta.
Segui em tom firme, mas com a voz doce: "você não pode fazer isso", "você, normalmente, é tão comportada", "a vovó vem aqui para te fazer companhia" soltei, não necessariamente nessa ordem - e ela me encarando. Tá funcionando. "O papai fica aborrecido", "fazer birra é feio" e ela com olhos nos olhos. Continuei com minhas frases de efeito para a psicologia infantil e, para minha surpresa, a Elis sem desviar a atenção, arregalando os olhos de vez em quando, sem piscar, a um palmo de distância de mim.
Acho que até espichei meu sermão, dada a receptividade dela, sustentando firme o olho-no-olho. Quando terminei, estava convencido que tinha atingido meu objetivo, porque nunca a tinha visto acompanhar tão atentamente meus discursos. "Não faça mais isso, tá bom?" Ela me encarou por mais uns dois segundos, em silêncio, deu uma esbugalhada nos olhos típica de quem está desfocando, e soltou essa, apontando para o centro das minhas sobrancelhas:
- Papai, você tem três olhos...
Xampu
Benhê, acorda.
- Ahn?
- Nossa bebezona tá mesmo gripada, já levantei três vezes para acudir. Vá lá, por favor, porque ela está resmungando. Veja se é febre; se for, dê o antitérmico, tá bom?
- Ahn?
- Juvenal!
- Tô indo, tô indo...
Calçou os chinelos trocados e tropeçou duas vezes, sonolento, até alcançar a caminha, tentando encontrar uma boa razão para o porquê de, em plena época dos avanços tecnológicos e dos sistemas de informações, as crianças não terem uma tela de LCD na testa com informações básicas de temperatura, sono, fome, nível da bexiga, etc.
- Ô, filhinha, tudo bem?
- Ahnãuãhnanhuaãããããããh - foi, mais ou menos a resposta, em tom beeem choroso.
- Deixe o papai colocar o termômetro aqui.
Chegou a sonhar enquanto esperava o bipe.
- 38,5. O papai vai pegar o remedinho, tá?
- Nãããhnãuãhnanhuaããããããão.
- Eu volto num instante.
- Não, papai.
- É rápido, meu amor.
- Mas eu não quero o remédio.
- Por quê?
- Porque tem gosto de xampu.
Abafou, como pôde, o riso.
- Como assim, filha?
- Ué, papai, xampu. Sabe? O do cabelo.
- Eu sei o que é xampu, filha, mas como você sabe o gosto?
- Eu sei, oras.
- Você andou bebendo xampu? Olha, filha, não pode isso. Xampu não é de beber.
- Não bebi, papai, mas sei o gosto. Igual ao remedinho.
- Mas o remédio é sabor tutti-frutti...
- O que é tutti-frutti?
- É uma mistura de todas as frutas - arriscou uma tradução-livre com seu italiano nulo.
- Todas?
- Sim, todas.
- Tem morango, papai?
- Tem, filha.
- Tem banana, papai?
- Tem também, filha.
- Tem uva, papai?
- Claro que tem, filha - disse, já impaciente - tem todas as frutas misturadas.
- Até abacate, papai?
- Sim, filha, até abacate.
- Então não quero, porque não gosto de abacate.
- Já chega! – disse irritado por ter caído na arapuca armada pela filha, de apenas 3 anos - Vai tomar sim, porque a mamãe disse que precisa - diante do fracasso iminente, apelou para a autoridade máxima da casa, para acabar com a discussão.
- Então você toma um pouquinho, para eu ver que não é ruim o gosto?
- Tá bom, mas só um pouquinho.
Sujou os lábios com o tal remédio, fingiu estar provando um manjar dos deuses e acabou por ministrar a quantidade recomendada à pequena, que tomou a contragosto. Trocaram um "boa noite", ela logo se atracou com o travesseiro e ele voltou pra cama.
Ao deitar, acabou acordando a companheira.
- Era febre?
- Era.
- Deu o remédio?
- Após uma boa chiadeira, não escutou?
- Não. Venha cá, me dê um beijo e vamos dormir.
- Juvenal?
- Ahn?
- Que gosto de xampu é esse?
08.08.08 10:14:45, 
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