Um qualquer

by oproprio Email

Hoje estou me sentindo como um qualquer.
Apesar de não arrotar isso aos quatro cantos, a vida inteira me senti diferenciado, por não fazer parte “daquela” gente. Participei do grupo seleto, desfrutei de seus benefícios, ri disfarçadamente dos outros, por não serem como nós.
Fosse num sol de rachar ou na chuva torrencial, estava pronto para o que desse e viesse, contrastando com os desprovidos, entregues à própria sorte, ao léu. Pobres almas carentes.
E hoje, logo hoje, dia especial – que faz com que o ano seja diferente, maior, bissexto – me dei conta que não sou mais quem eu era; não sou mais um especial, escolhido, quase predestinado. Caí na vala comum, onde encontra-se quase toda a população mundial.
Não que as pessoas ditas comuns sejam piores, menores ou mais desprovidas, mas elas não têm mais aquele “que”, que as diferencia. São, puramente, normais. E terei que viver, a partir de agora, com essa noção de normalidade em mim.
Daqui a pouco, como um comum, terei que partir para as soluções paliativas, próprias à minha casta, para parecer um especial. É um pequeno disfarce à minha nova condição, que, na maioria das situações, conceder-me-á o status outrora perdido, aos olhares mais desatentos. Engodo puro.
Hoje mesmo, ao sair de casa, já sofri os reflexos da minha recente realidade: um chuvisco me molhou a careca. É isso mesmo, senhoras e senhores, pela primeira vez perdi meu guarda-chuva.

Eu protesto, chefia!

by oproprio Email

De repente, corta o vento gelado (do ar condicionado) desta manhã de terça-feira um som ruidoso. É uma corneta, que dá o tom para uma série de outros apetrechos barulhentos advindos da faculdade vizinha. Apitos, pandeiros, batuques e gritos de guerra aumentam o grito original da corneta.
Olho pela janela e vejo um grupo de estudantes sair pelo portão lateral da instituição de ensino e lembro-me dos cara-pintadas durante o governo Collor - movimento que neglicenciei, quando era estudante da unidade UDF do Objetivo. Recordo-me bem que, num dia, alguns colegas se empetecaram para protestar na esplanada, encerrando as aulas naquele turno, e quase morri de achar bom porque estava prestes a zerar o Alex Kidd e pude ir mais cedo para casa para jogar. Não espalhem isso. Sério. Morro de vergonha de lembrar que não fiz parte de um movimento alegre e saudável porque era um apolitizado-nerd do marca maior.
Voltando à faculdade, os estudantes ruidosos não passam de uns 20, 30 no máximo. Isso me remete a outra época, quando eu, já universitário engajado, sempre fiz parte dos movimentos estudantis a e acadêmicos, e pelejava horrores para mobilizar os apolitizados-nerds que me cercavam, fosse para uma melhora departamental, os jogos universitários ou um churrasco de confraternização (em ordem crescente de prioridade, frise-se). Fiquei imaginando o sofrimento dos organizadores daquela passeata ali embaixo em angariar simpatizantes pela causa.
Falando nisso, qual seria a causa abraçada pelo grupo? Seria acadêmica? Política? Estão, em sua maioria, vestidos de roupas vermelhas; então, a coisa foi premeditada, o que aumenta minha admiração pelo protesto e minha consternação pela baixa adesão. Descubro-me morrendo de curiosidade para saber o motivo da manifestação...
Nisso eles saem da insituição e descem, rumando a avenida W4 e o prédio que estou. A descida não dura mais que um minuto, que acompanho atentamente. Estão sorridentes. Não interrompem o trânsito - provavelmente por não terem estrutura numérica para tal - e aguardam paciente e ruidosamente para atravessarem a rua. Fico em pé para observar melhor, e porque eles já estão no pé do prédio e não os vejo de minha cadeira. Eles somem embaixo da marquise e eu desejo estar com eles. Sento-me e começo a escrever essas linhas.

Agora, enquanto encerro este texto, a maioria dos instrumentos já calou. Escuto apenas um pandeiro mal-tocado, num pagode de última categoria - começado 30 segundos depois de sumirem na marquise - que este grupo de "atôas" toca no boteco ao lado, embebedando-se de cerveja às 10h da manhã, matando aula. Vagabundos!

Canalha de araque

by oproprio Email

Entrar em casa só de meias não foi suficiente para disfarçar o barulho.
- A-DAL-BER-TO!
- Sim, benzinho, ainda acordada?
- Isso são horas, Adalberto?
- Fale baixo, amorzinho, senão você acorda as crianças e...
- Seria ótimo elas acordarem, Adalberto, assim elas se lembram da cara do pai.
- Sabe como é Dilzinha, muito trabalho no escritório.
- Adalberto, tá difícil de acreditar em você. É o terceiro dia, só nesta semana, que você faz serão.
- Fim de mês é assim, meu docinho, você sabe.
- Não senhor, seu Adalberto. Não há motivos para tantas horas extras juntas. Olhe para mim; olhos nos olhos. Sem desviar, Adalberto. Diga para mim: o que está acontecendo?
- Nada...
- Ai, meu Deus. Eu conheço esse olhar, Adalberto. Eu não acredito...
- Que foi?
- De novo não, Adalberto, não vou suportar passar por tudo de novo.
- De novo o que, mulher de Deus?
- Não minta para mim, Adalberto!
- Mas querida...
- Eu não posso acreditar - cara de choro - mamãe bem que me avisou para não te dar outra chance.
- Eu... fraquejei. Perdoe-me.
- Perdoar, seu salafrário? Você se esqueceu da humilhação que você me proporcionou da outra vez, seu cachorro? Passei dois meses sem botar a cara pra fora da janela porque não conseguia encarar os vizinhos.
- Não exagere, chuchuzinho.
- Aposto que isso é obra da Margarete, aquela sirigaita do recursos humanos. Eu bem reparava nas investidas delas pro seu lado nas confraternizações do escritório.
- De onde você tirou isso, Dilzinha? Não comprometa a pobre moça, ela é casada.
- E eu sou o que, seu pamonha? É bom que o marido daquela lambisgóia saiba que sua esposa é uma fraca. Assim como você, seu pastel! Todo mundo fala que é roubada, que é só dor de cabeça, mas sempre tem um bocó pra cair naquela conversinha mole.
- Dilzinha, se eu fiz o que fiz, foi pensando no nosso bem. Uma diversificada, de vez em quando, pode trazer a estabilidade pra casa.
- Eu me garanto, Adalberto. Vá diversificar na casa do...
- Pare, biluquinha, tente se acalmar. Foram só uns beijinhos, nada mais.
- Beijinhos? Beijinhos em quem, Adalberto? Do que você está falando?
- Ué? Eu e a Margarete, você sabe...

- Dilza, pare de me torturar, diga alguma coisa.
- Achei que você - Dilza solta uma sonora gargalhada - tivesse voltado pra Amway.
- Então tô perdoado?
- Claro que não, hahaha. Some daqui. HAHAHAHA. Canalha. HAHAHAHAHAHAHAHA!

<< 1 2 3