A musa

by oproprio Email

Ontem foi um dia triste.
Afora o cansaço colossal que eu sentia, fruto de uma noite de sono encurtada por uma festança em plena terça-feira, passei o dia abatido. Logo que acordei, ao desligar o despertador, vi a data e me lembrei dela. “Faz dois anos”, pensei, “longos 2 anos sem poder tê-la”.
Durante a manhã tentei esquecer, mergulhar no trabalho; mas de tanto em tanto ela me voltava à memória. Tínhamos uma relação longa, desde muito antes de eu me casar com a Simone. No começo do casamento, inclusive, eu reprimi esse amor incontido por ela. Depois de algum tempo, sabendo que não conseguiria deixá-la no anonimato por muito tempo, declarei-a à minha esposa. Dias difíceis. E, para minha incredulidade e êxtase, depois de alguma discussão, conciliamos que eu poderia encontrá-la uma vez por semana, dentro de um horário preestabelecido.
Que alegria! Minha mulher não só já sabia desse meu caso, como compactuava com minhas escapulidas semanais. “Para o bem do nosso relacionamento”, ela repetia aos incrédulos que a questionavam. Eu completava: “eu extravaso minhas frustrações, nessas ocasiões, e volto para casa mais aliviado”. Bons tempos aqueles. Houve épocas em que eu conseguia uma brecha e a via duas, até três vezes na semana.
Apesar de intenso, nosso relacionamento sempre foi instável. Alternávamos momentos de amor e ódio até no mesmo encontro. Confesso que até bati nela; como apanhei diversas vezes. Mas isso não diminuía minha disposição em vê-la novamente na semana seguinte, cheio de esperanças por mais momentos juntos. Eu me sentia mais vivo.
Até naquele fatídico dia 9 aconteceu o acidente. Quem o presenciou nem desconfiou de sua gravidade. Pareceu um choquezinho normal, desses que acontecem aos montes todos os dias. Mas esse não. Foi grave. Dois traumatizados e uma fatalidade. Os médicos – foram 3 – até que tentaram sua recuperação, o tratamento foi intensivo, 6 meses ininterruptos de esforços, em vão.
A vítima desse acidente não foi ela, que continua por aí, solta e faceira, a cachorra, sem me dar mais chances. Vez em quando a vejo aparecendo na mídia; ao vivo, muito raramente. Sempre relembro de nossa relação, deliciosamente conturbada. A vítima fatal foi um parceiro que eu tinha e que, até esse dia, eu nem sabia seu nome. É o ligamento talofibular do tornozelo direito. A musa? A bola, claro.

Raimunda

by oproprio Email

Vamos combinar um coisa? Cocô é um mito. Todo mundo faz todo dia – quem não consegue essa freqüência morre de inveja dos mais “assíduos” -, é da natureza humana, mas ai de quem puxar esse assunto em público. É transgressão das mais graves.
Não é por acaso que aparecem as mais divertidas analogias para o ato de fazer cocô: “número dois” é a mais sutil, “levar vida de rei” está mais para um momento de desarranjo, quando o trono é mais assediado, o singelo “estava obrando” é minha predileta e não consegui achar um porquê razoável para ela; depois dessas há outras mais fortes, que prefiro deixar de lado, dado o horário impróprio para palavras mais duras.

Todo esse preâmbulo só para dizer que tenho o hábito de ler enquanto faço cocô. Isso mesmo. Deveria ser simples assim, mas sei que alguns me acharão um e.t. por dizer isso, apesar de um montão de gente ter hábito similar – e, por favor, não tentem imaginar a cena.
Desde que me dou por gente – e isso inclui, necessariamente, saber ler e conseguir ir ao banheiro sozinho – tenho lembranças de haver um armário do banheiro recheado de revistas em quadrinhos. Pilhas e pilhas, que tinham uma destinação única: passatempo ao vaso. Devo ter lido cada uma algumas dezenas de vezes, porque a rotatividade das revistas não era proporcional à freqüência ao trono.
Ruim foi quando mudamos do apartamento para uma casa maior e a quantidade de banheiros era bastante superior às pilhas de revistas, que ficaram restritas a um armarinho...

Ultimamente, depois que abandonei os quadrinhos, resolvi colocar um livro à mão; enquanto todo mundo tem um livro de cabeceira, eu tinha um de vaso (e outro na cabeceira, para não ser de todo esquisito). Acho que essa iniciativa não vingou mais por conta da má seleção dos títulos que pela opção em si.
Há um bom tempo, mudei de estratégia e disponho de uma revista semanal no banheiro. É a conta exata de ler ela inteira e vencer a semana – parece que foram feitos um para o outro, até boa parte do conteúdo dela, que trata de política, combina com o ambiente...
Mas, recentemente, mais precisamente depois do Natal, resolvi colocar uns livrinhos de palavras-cruzadas. Parêntese: sempre adorei palavras-cruzada, mas elas estavam em desprestígio comigo. Até que nesse último feriado, em viagem para Beagá, ressuscitei o hábito. Fecha parêntese. Uma página de Diretas, no nível difícil, é o tempo exata para a função.
Aos críticos do rumo dessa prosa, pergunto: e vocês, caras-pálida, qual é sua ocupação nessas horas? Contar cerâmicas da parede? Tirar meleca do nariz? Cantar? Cada louco com suas manias, certo?

Eu poderia substituir todo esse texto anterior por um singelo “Tenho feito palavras-cruzadas”, porque o tema que quero abordar ainda está por vir, mas isso não teria a menor graça.
Dia desses, ao pegar meu livrinho no banheiro, observei uma página, quase totalmente preenchida, e me debrucei (no sentido conotativo, crianças) sobre as palavras faltantes. Eis que me deparo com uma: “calipígias”; ao ver a descrição, tive um acesso incontrolável de riso. Demorei longos minutos para me recompor. O que me pegou foi a imprevisibilidade: “Aquelas que têm belas nádegas”.
Assim sendo, se alguém te chamar de calipígia na rua, não o mande ir cagar.

Ai, CARAI...

by oproprio Email

Eu acho sonho uma coisa muito louca. Como explicar esse fenômeno que, ao mesmo tempo que te coloca com a camisa 9 do Mengão, num Maracanã lotado, resolvendo a partida do campeonato, te põe pelado num baile de formatura?
Sei que tem gente que estuda isso, profissionais que conseguem traçar alguma característica sua a partir de suas experiências vividas durante o sono. Mas eu não tento nem quero entender.
E recém-nascidos, então? Tá que, desde algum momento, ainda no ventre da mãe, eles já guardam informações e sensações que a genitora experimenta – acredito piamente nisto. Mas o que será que um neném, de alguns dias de vida, sonha? Porque sonha, sim senhor. Eu vi isso nas minhas bebezinhas.
Particularmente, passo por fases de sonhar muito – ou, ao menos, ter registros de muitos sonhos – e períodos de absoluta falta de viagens noturnas. Atualmente, estou num período de seca. Apesar disso, alguns temas são recorrentes, a saber:
1) Pelo menos uma vez por semana, me vejo em gramados, de chuteiras, chutando longe minha frustração por ser um aleijado para o futebol. Nesses dois últimos anos - desde minha aposentadoria forçada - é freqüente eu voltar a campo, no mesmo gramado sintético em que deixei meu tornozelo, com os mesmos companheiros de pelada, e bater uma bolinha. Às vezes, sou o craque do time; as vezes, em contrapartida, cometo erros bisonhos, mais fiel ao meu desempenho pré-contusão;
2) Esse sonho já foi mais assíduo há alguns anos, mas não é incomum eu sonhar que estou fumando. Afora uma experiência frustrada na adolescência (que, por sinal, merece um texto só para ela), que não durou nem um maço, nunca fumei. Nem legalizado nem extra-oficiais. Mas, vira e mexe, estou posando com um cigarro entre os dedos; e vale qualquer ambiente. Vai saber o que isso representa;
3) Outro, que já foi habitué nas minhas noites, era a dificuldade em atravessar a rua: eu sempre tinha um espação para passar, até que chegasse algum carro, tentava correr pelo asfalto, mas minhas pernas pesavam horrores e nunca conseguia alcançar a outra margem. Dois fatos curiosos sobre esses sonhos eram (a) eu sempre acordava antes que carro me atingisse, e (b) era sempre no mesmo lugar. Para ser bastante preciso, sempre no eixinho L norte, sentido rodoviária, talvez na altura da 206N. Só não me perguntem porque eu precisava atravessar a rua nesse local, mas era lá que eu tentava quando sonhava. E era lá que eu empacava. Diacho de sonho estranho;
4) O último, mais constrangedor, era aparecer de cueca em locais públicos. Que mania bizarra era essa de esquecer de por roupas antes de sair de casa? Pior é que não havia uma alma caridosa para me alertar antes que eu chegasse no meu destino. Odiava esse sonho, mas é outro que não me aparece há muito tempo.

Até ontem - eu já pensava em escrever sobre sonhos - eu teria parado por aqui, tentando fazer uma piadinha sobre meus sonhos de cuecas e despedindo-me. Mas minhas filhas, sempre elas, vivem oferecendo experiências incríveis, que preciso dividir com vocês. Vamos à segunda parte, então.

Plena terça-feira, 5:40 da manhã, faltando vinte sagrados minutos para meu despertador tocar, minha filha aparece ao pé da cama pedindo um teco do meu travesseiro.
- Posso dormir aqui, papai?
- Filhinha, por que você não dorme na sua própria cama?
- Sabe o que é papai, tem um monte de cachorros, brincando de circo sentados à minha cama, que ficam me dando sustos.
Pára tudo. Não são nem 6 da manhã, não tenho forças nem para rir, quanto mais fazer alguma idéia do que responder nessa situação. Preciso de ajuda.
- Por gentileza, é da Central de Atendimentos para Respostas Antipáticas Infantis?
- Sim, senhor, é da CARAI, atendente Geni falando. Em que posso estar ajudando? – como toda boa operadora de telefone, a Geni abusa de gerúndios. Comecei bem.
- Minha filha disse que tem um punhado de cachorros na cama dela, brincando de circ...
- Um instantinho, senhor, preciso de uma informação por vez. O senhor disse cachorros, certo?
- Isso mesmo.
- Encontrei a categoria “cães”. Serve?
- Acredito que sim.
- Qual raça?
- Não faço idéia, ela não disse.
- Senhor, se o senhor não me informar a raça dos cães, estarei lançando “indeterminado”, mas isso pode limitar as pesquisas subseqüentes. O senhor me autoriza não especificar a raça?
- Claro, claro. Mas vá rápido porque ela está me olhando com cara de pidona e pode começar a gritar a qualquer momento.
- Senhor, preciso deixar claro que, caso a consulta não apresente resultado satisfatório por causa da não especificação da raça dos cães, a cobrança pela ligação estará sendo efetuada assim mesmo.
- Tá bom, tá bom, mas ande logo, por favor.
- Quantos cachorros?
- Três – menti para não escutar aquela ladainha de novo.
- Ok, 3 cães de raça indeterminada. O senhor está com sorte porque, para essa quantidade de animais, não há a necessidade de estar sendo especificado do sexo. O que mais?
- Eles brincavam de circo.
- Complicada essa, hein? Deixe-me ver o que posso encontrar... – sons de teclas sendo pressionadas – Ahá! “Brincadeiras de fim de semana – clube, circo, cinema e zoológico”. Exatamente o que o senhor precisa.
- Ótimo, ótimo. Bom eles brincavam sentados na cama e estavam assus...
- O senhor disse “sentados”?
- Isso mesmo
- Lamento senhor, mas essas brincadeiras, segundo meu sistema, só podem ser executadas por cães sobre as patas, rolando ou fingindo de mortos.
- Não tem nada sobre cachorros sentados?
- Só se estivessem brincado de andoleta, passar o anel, adedonha ou chicotinho queimado.
- Mas preciso dar uma resposta a ela.
- Lamento, senhor, mas a não informação da raça pode ter sido determinante. Quem sabe poodles não possam brincar sentados? Eles são os preferidos das crianças.
- Não, não eram poodles. Obrigado.
- A CARAI agradece sua ligação e desej...

- Deita aqui, filha.

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