Eu posso explicar
Não quero desestimular os ainda solteiros, mas a última decisão soberana que tomei foi a de subir no altar (e há quem discorde disto). Depois do “sim”, passei a não ter nem 50% do poder de decisão das minhas vontades, quem dirá da minha agenda.
Dito isto, “decidimos”, no último domingo, fazer compras de mercado logo após o almoço. Além das aquisições de praxe, para consumo e manutenção da casa, teríamos carga extra na nossa lista, por conta de situações excepcionais; a expectativa era de passarmos em 3 estabelecimentos diferentes.
Entregamos as meninas para os avós e partimos para nossa saga dominical. Contei no relógio, ficamos 212 minutos entre gôndolas e filas. Nesse meio tempo, a Itália conseguiu não fazer gols, mas eliminar a Inglaterra, o Flamengo foi ao sul e voltou sem uma goleada na bagagem – o que é incomum -, o prazo de recurso do presidente paraguaio começou e terminou e perdi uma moeda de 10 centavos. Estava com dor nos pés, na alma e no bolso.
Eram tantas as compras que entupi o porta-malas do meu carro (que não é pequeno) e tivemos que acomodar o restante das embalagens no banco traseiro.
Deixei as meninas e parte das compras em casa e parti para a residência de meus pais, onde esvaziaria o carro com o que faltava.
Quase chegando em meu destino, tomei uma fechada cinematográfica de um distraído, que me fez pregar no pedal do freio com todo meu reflexo e força. Livrei-me da colisão, mas as compras chacoalharam no porta-malas – já meio vazio – e uma caixa de cerveja, que antes estava na cadeirinha da caçula, caiu sem cerimônia no assoalho do carro, não sem antes bater violentamente no console. Nisto, duas latinhas estouraram, fazendo uma verdadeira lambança. “Murphy, seu fanfarrão”, foi o único pensamento que me veio, além de um punhado de palavrões.
Já na volta para casa, com o carro sujo, lembrei-me de uma blitz que vi no trajeto, que estaria logo à frente. “Seria ironia demais, com o carro fedendo a cerveja”, pensei. Como Deus tem um senso de humor enorme, o guardinha apontou para mim e mandou que eu encostasse. Abri a janela e cumpri o protocolo inicial, entregando a documentação solicitada.
Quando o Cabo Pires veio devolver meus pertences, deve ter percebido o odor que exalava o meu veículo:
- Você ingeriu bebida alcoólica, Sr. Guilherme?
- Não senhor, seu guarda.
- O senhor poderia sair seu carro, por gentileza? – indagou o policial, muito cordial.
Abri a porta e a iluminação interna, quase como um feixe de luz direcionado, deu vida às duas latinhas estouradas no chão do carro. Nós dois as olhamos ao mesmo tempo e ele se dirigiu a mim, com olhar desafiador:
- O senhor tem certeza que não ingeriu bebidas alcoólicas?
Nem tive tempo de responder porque, ao descer do carro, consegui tropeçar no cinto de segurança e caí, feito uma jaca mole, estatelado no asfalto. Nisto, meu inquiridor já fez sinal para seu colega, que trouxe o bafômetro e veio se juntar a nós.
- Seu guarda, eu posso explicar – balbuciei a clássica frase dos que têm culpa no cartório, mesmo sem tê-la.
Gastei os 20 minutos seguintes em explicações, testes de coordenação motora, equilíbrio e dicção, além de não me livrar de soprar o canudinho do bafômetro. Mal sabiam eles que parei de beber há mais de ano.
Irritado, cansado e com os joelhos esfolados - mas sem multas -, retomei meu caminho para casa; não sem antes, num arroubo de fazer justiça, encostar numa lojinha de conveniência e comprar uma cerveja, que tomei quase que num gole só.
Gui Olivieri
26/06/2012
Hobby
- Papai, você me ajuda com o dever de casa?
- Claro, filha.
- Você tem um hobby?
- Tenho alguns. É sobre eles que você precisa escrever?
- Não exatamente; é apenas uma entrevista que tenho que fazer com os pais, de coisas simples. Eu já sei a resposta de todas as outras perguntas, só falta preencher o espaço depois de “Hobby”. A tia explicou o que é, mas não sei se você tem algum.
- Pode escrever aí “filatelia”.
- Fila-o-quê?
- Filatelia é a coleção de selos.
- O que é selo?
- É aquilo que se cola numa carta, para poder mandar para o destinatário.
- Mas, para mandar a carta, não é só escrever no computador e apertar o “Send”?
- Não, filha. Antigamente, não existia computador, internet... A gente, para mandar um bilhetinho para quem mora longe, escrevia uma carta no papel.
- Igual a que fazemos para o Papai Noel?
- Exatamente.
- E a pessoa vinha buscar a carta na janela?
- Não, não, não. Nós entregávamos a carta nos Correios, que mandavam para a pessoa.
- Mas como eles sabiam o endereço? Eles conheciam todo mundo? Se eles vão até lá, por que você mesmo não vai? O que tem o selo a ver com isso tudo? Os selos que você coleciona são de cartas que você teve preguiça de escrever?
- Calma, criatura! Vou explicar direitinho: acontece que quanto uma pess...
- Pode parar. Isso é muito chato e nenhum dos meus colegas vai entender. Tem outro hobby?
- Err, tenho. Coleciono vinis.
- Vinil é aquele discão, todo preto?
- Isso mesmo.
- Por que você guarda esses discos?
- Porque eu gosto.
- Mas, depois dele, não teve o CD?
- Teve.
- E o MP3?
- Também.
- Papai, isto não faz sentido. Se você tem todos os discos que gosta em vinil, por que ter tudo repetido em CD e todos, todinhos esses, no computador?
- Imagine, filha, que você goste muito de Barbies e queira guardá-las para sempre. Haverá outras bonecas, mas você vai sempre querer ter as Barbies.
- Mas você manda eu dar para as crianças que não têm brinquedos!
- Mas só porque você tem muitos brinquedos e, de quando em quando, temos que esvaziar o baú, para guardar os novos, que você ganha.
Depois de falar isto, percebi que armei uma armadilha contra mim mesmo e ela, esperta, já fisgou minha falha e armou o bote.
- Você também tem um tantão de discos de vinil no armário e três gavetas cheias de CDs, não tem?
Tratei de mudar de assunto.
- É filha, mas ninguém quer saber de um hobby de coleção de vinil, porque quase ninguém conhece. Anote aí outro: gosto de escrever.
- Mas todo adulto escreve, papai. Seu hobby, então, é só gostar?
- Não, filhinha, eu gosto de escrever crônicas, que são umas historinhas sobre vários assuntos.
- Quantos livros você já escreveu?
- Nenhum, filha.
- Então por que você escreve, se ninguém lê?
- Algumas pessoas leem, porque eu mando o texto para elas.
- Você usa o selo da coleção, para mandar o texto?
- Não, filha, eu mando por e-mail.
- Elas que pediram?
- Não, mas eu achei que elas gostariam de ler. Por isto eu mando.
- Elas falam que gostam?
- Alguns respondem, dizendo que gostam.
- Então por que você manda para os que não gostam também?
- Porque pode ser que eles não gostem de umas, mas gostem de outras.
- Alguém já te disse que não gostou de alguma?
- Não.
- Talvez eles não tenham gostado e não queiram te deixar triste.
- Será?
- São todos seus amigos?
- Amigos e parentes.
- Para quantos você manda?
- Uns 200...
- Quantos respondem?
- Nunca mais de 15.
- Então – fazendo contas – mais de 180 não respondem elogiando?
- Isso.
- Acho que eles não gostaram, papi.
- Pare com isto, menina! Escreva aí que eu gosto de pescar.
Gui Olivieri
10/03/2013
Déjà vu
Ontem fiquei acordado até 2 da manhã, porque precisava acabar de ler um livro. Adoro ler e sempre tenho um, ou dois, ou três livros a postos na cabeceira da cama. O problema é que, não raro, chego num ponto da trama no qual não consigo simplesmente descansá-lo no criado-mudo, virar para o lado e dormir; preciso, nessas horas, ir até o fim, descobrir que o mordomo é o culpado e que o herói é condecorado. Se não acabo com o livro, ele acaba com minha noite de sono, porque não desligo dele.
Dito isto, ontem acabei com um livro eram mais de duas da manhã. Por sinal, um sujeito, cujo parceiro morreu no comecinho, deu cabo de dois cartéis mexicanos e de uma facção terrorista paquistanesa. Sozinho. E ainda ficou com a mocinha no final. O cara é quase o Chuck Norris...
Fechei o livro satisfeito e apressei-me em deitar, para tentar descansar nas pouquíssimas horas de sono que me restavam, quando minha amada esposa, claramente sonhando, solta uma boa risada:
- Ha, ha, há...
E emenda:
- Eu te levo até lá!
- O corpo todo?
- Aí eu não dou conta, não.
E continuou dormindo candidamente.
Sentei na cama.
Risadinha, beleza. Levar alguém a algum lugar, admissível. Mas minha cabecinha grande e careca tem minhoca demais quando alguém fala que não vai dar conta do corpo todo. E, dormindo, os filtros caem. Sei de um amigo que tira qualquer informação da esposa enquanto ela dorme; ele sabe de todos os supostos segredos dela.
E eu, acordado na madrugada, com “o corpo todo” na cabeça. Pensei de tudo, desde a mais inocente das interpretações até a mais cabeluda. Rolei na cama, contei carneirinhos, levantei, lanchei de novo, voltei pra cama, estalei todas as juntas do corpo dezenas de vezes, assisti-a dormindo, joguei no celular e, com o dia quase amanhecendo, sem desgrudar daquele semi-diálogo, dormi.
Menos de 40 minutos depois, meu despertador – cruel, como sempre – me lembra que não tenho o tempo de descanso que necessito e me impele a levantar. Uma terrível crise de enxaqueca, típica de noites mal dormidas, me acompanha.
Mal humorado, até com certa raiva da minha mulher, digo rispidamente que não levarei as meninas à escola, porque preciso de uma sessão de massagem, para recompor a noite sem descanso.
Ela, inocente e sempre disponível:
- Eu te levo até lá!
Quase pedi para ela mesma me fazer a massagem, quando inferi o resto do diálogo, dito a mim antecipadamente horas antes.
Baixei a cabeça com um resignado “deixe pra lá” e aprumei para levar as meninas à escola. Se soubesse da minha agonia noturna, ela diria, sem um pingo de modéstia e com um tanto de razão, que está certa até dormindo.
Gui Olivieri
05/03/2013


22.03.13 08:33:31, 